Nascimento De Venus Botticelli - O Nascimento de Vênus, a obra-prima de Botticelli nas Gallerie degli Uffizi
O Nascimento de Vênus, a obra-prima de Botticelli nas Gallerie degli Uffizi

Repintura e restauração da obra

A tela O Nascimento de Vênus, de Sandro Botticelli, pintada por volta de 1485, está em bom estado geral, mas tem problemas conhecidos. A tempera sobre tela foi um erro técnico do artista: a técnica não era ideal para obras grandes. O resultado é que a superfície craquelou de forma irregular ao longo dos séculos.

nascimento de venus botticelli e suas restaurações

O Uffizi fez intervenções em 1976 e depois em 2000-2003. A primeira foi problemática. Usaram solventes agressivos e uma camada de verniz sintético que amareliou com o tempo. Ficou aquela aparência de plástico refletindo luz artificial. Os conservadores admitiram o erro anos depois. Na restauração de 2000, a equipe do Centro de Restauração do Palazzo Albizzi removeu o verniz amarelado e os repintes impróprios da década de 70. Descobriram que a paleta original era mais vibrante do que se pensava. Os azuis e rosas estavam bem mais saturados antes de anos de sujeira e verniz degradado. Também identificaram que certas áreas escuras, especialmente na sombra do cabelo de Vênus e nas ondas, eram acréscimos posteriores, provavelmente do século XVI ou XVII.

O problema mais chato que encontrei ao estudar imagens de alta resolução da obra é a diferença entre como a pintura aparece hoje versus como muitos livros de arte a mostram. Até meados dos anos 2000, as reproduções impressas eram baseadas em fotografias tiradas antes da restauração, com aquele tom amarronzado geral. Se você comparar um catálogo de arte antigo com uma foto recente tirada nas condições corretas de iluminação do Uffizi, a diferença é impressionante. A cabeça de Vênus, por exemplo, parecia quase marrom. Agora tem um tom de pele claro, quase pálido, como Botticelli provavelmente pretendeu. Outro detalhe que muitos passam sem notar: a tela original tem cerca de 172 cm por 278 cm. É maior do que parece nas reproduções. A obra foi recortada nas bordas no passado. As marcas de corte são visíveis se você olhar as bordas superiores e laterais com uma boa lupas. O que isso significa na prática é que a composição original era ainda mais larga do que a versão atual, e perdemos parte do contexto composicional que Botticelli planejou.

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Questões técnicas sobre a execução

Botticelli usou tempera grassa, uma mistura de gema de ovo com algum óleo. Isso era incomum para a época e para pintores florentinos. Os milanenses e venezianos já experimentavam com óleos, mas Florença ainda era bastante apegada à tradição da tempera pura. A escolha do artista teve consequências duradouras. O suporte também não ajudou. Ele pintou em tela, não em madeira. Painéis de tábuas eram o padrão para obras de grande porte na Florença do Quattrocento. Tela era mais comum na Itália setentrional, especialmente em Milão e Veneza. Botticelli provavelmente tinha acesso a suportes têxteis através de contatos com artistas lombardos ou porque encomendou a tela diretamente. O problema é que tela é flexível. Com o tempo, a tensão varia com a umidade e a temperatura. Sem o rigidez de um painel de madeira, a superfície expande e contrai, e a camada de tinta craquela de maneira diferente do que ocorreria numa tavola.

Para quem estuda a obra com atenção, vale notar que os contornos desenhados com linha clara, aqueles traços definidos que são uma marca do estilo de Botticelli, estão mais preservados do que as áreas de modelagem suave. A linha foi aplicada de forma mais segura, provavelmente com um pigmento mais grosso ou com menos meio líquido. As transições de cor, especialmente nos cabelos loiros e nas sombras suaves do corpo, mostram mais deterioração. Isso não é apenas uma questão de idade. É uma questão de como a mistura de tempera e óleo envelhece de forma desigual em diferentes técnicas de aplicação.

Onde ver a obra

O Museu Uffizi, em Florença, guarda a pintura desde 1799, quando entrou para a coleção mediceia. A sala é a 10, na galeria da Pintura Florentina do Século XV. A iluminação é controlada, mas mesmo assim a obra fica atrás de vidro com camadas de proteção UV. Para fotos, o flash não é permitido e a reflexão do vidro atrapalha. O melhor é ir em dias de menos movimento, entre 9h e 10h da manhã na abertura, ou após as 16h. O fluxo de turistas diminui e você consegue ficar mais tempo observando os detalhes. Se quiser imagens de altíssima resolução para estudo, o site do Uffizi disponibilizou digitalizações em alta definição após a restauração de 2003. Não é tão fácil encontrar links diretos porque o museu mudou a plataforma várias vezes, mas a página do departamento de conservação costuma ter acesso às imagens restauradas, diferentes das fotos antigas tiradas antes da limpeza.

Créditos

Atribuição e direitos: conteúdo educacional sob CC BY-NC-SA 4.0.