Mario Quintana e a gente que ainda tenta entender o que ele fazia
O nome completo dele era Mário de Souza Quintana. Nasceu em 1906, em Cachoeira do Sul, no Rio Grande do Sul. Morreu em 1994, em Porto Alegre. Foi poeta, tradutor, cronista e professor. Isso é o básico, o que qualquer dicionário literário vai te dizer em dois minutos.
mario quintana quem foi: o que ele realmente fazia
A coisa mais importante sobre Quintana é que ele escrevia prosa poética com uma leveza que engana. Todo mundo acha que é fácil ler ele. Eu já vi gente dizer que "qualquer um entende Quintana". Qualquer um lê, sim. Mas entender de verdade o que ele tá fazendo nos versos — aquela mistura de infantilismo calculado com uma dor existencial que quase não aparece — exige outra coisa. É o tipo de coisa que você percebe depois de ter lido muito. Ele começou publicando coisas em jornais regionais ainda jovem. Depois veio para Porto Alegre, trabalhou como professor de português e francês em colégios particulares. Era um professor que cobrava atenção dos alunos, não exatamente do jeito que a maioria esperava. Ele gostava de provocar, de fazer a pessoa perceber que a linguagem tem esses buracos que a gramática normal não cobre.
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Entre as obras mais conhecidas estão Ronda de Livro (1952), O Pato Selvagem (1955), Lição de Coisas (1983) e o famoso Florinha, Flor de Vaqueiro (1984). Tem também os textos em prosa que ele escreveu para o jornal Zero Hora, que viraram livro. As crônicas dele são praticamente poesia disfarçada de conversa de boteco. Tem um detalhe que muita gente não nota: Quintana traduzia muito. Traduziu autores como Emily Dickinson, Fernando Pessoa, Walt Whitman. A tradução dele não era só um trabalho paralelo, era parte do processo criativo. Quando você compara a tradução de um poema de Dickinson feita por Quintana com outras traduções, fica claro que ele estava constantemente mexendo na linguagem para encontrar um ritmo que ele achava justo. Isso influencia diretamente a poesia original dele.
Eu cheguei a dar aula usando ele há alguns anos. Os alunos tinham uma reação estranha: ou adoravam, ou achavam "fácil demais". A dificuldade real tá em fazer eles perceberem que a simplicidade dele é construída. Não é ingenuidade, é escolha. Um verso como "Sou um bunda que canta" — sim, é assim mesmo — parece brincadeira, mas tem toda uma tradição de ironia e subversão do eu lírico clássica ali embutida. Aí o aluno perguntava: "professor, isso é poesia?". Eu tinha que explicar que a pergunta errada não era se era poesia, mas por que ele sentia que precisava ter certeza. Um problema prático que eu encontrei quando ia montar listas de leitura para iniciantes: Quintana é tão citadino, tão urbano em suas referências, que quem vem do interior ou de regiões mais afastadas das capitais grandes às vezes tem dificuldade de engatar. As alusões a lojas, a ruas, a objetos do cotidiano porto-alegrense dos anos 50 e 60 passam direto. A solução que eu achei foi começar com O Bicho Empalhado, que é mais universal, e ir descendo para os textos mais localizados. Funciona razoavelmente bem, mas ainda assim tem gente que não se conecta. Isso é normal.
O que eu acho que todo mundo deveria levar em conta: Quintana não era um poeta engajado no sentido político tradicional. Ele falava de política às vezes, como numa letra famosa que diz "O Brasil é o país do futuro. E sempre será." Mas a maior parte da obra dele é sobre o tempo, a perda, a memória, a infância que nunca volta. Se você for buscar militância em cada verso, vai ficar disappointado. Ele tinha suas convicções, mas a poesia vinha antes.