Machado De Assis Poema - Poema Ela Machado De Assis - NAZAEDU
Poema Ela Machado De Assis - NAZAEDU

Machado de Assis e a poesia que todo mundo ignora

A maioria das pessoas que estuda Machado de Assis vai direto para os romances. Dom Casmurro, Memórias Póstumas, Quincas Borba. A poesia fica esquecida, quando não completamente apagada. E isso é uma pena, porque ler os poemas dele desmonta muita coisa que a gente acha que sabe sobre o autor. O machado de assis poema é um universo à parte do prosador ironista e cético que estudamos no colégio. Nos versos, especialmente nos primeiros livros, há um romantismo ainda visível, com influências de Musset e Lamartine. O tom melancólico e aquela preocupação com a efemeridade da vida aparecem com força em Crisálidas, publicado em 1864.

ma chado de assis poema: por onde começar

Se você quer entrar pela porta certa, comece por "Soneto de um exilado" ou "Não temas". São os mais acessíveis e já mostram o que vem pela frente. Depois disso, Americanas (1875) traz uma virada interessante: a incorporação de temas indígenas e uma linguagem mais pesada, quase arqueológica, que poucos gostam, mas que é fundamental para entender a evolução dele. Li esses poemas há anos pra uma disciplina na graduação e na época fiquei frustrado. Achava que faltava a mordacidade que ele tinha na prosa. Achei que fossem exercises academics, versos de enforcado. Com o tempo, percebi que estava lendo errado. O problema era que eu esperava Machado prosador num poema e não estava conseguindo enxergar o poeta que existia ali.

Uma coisa que ninguém conta: o soneto "Vaidade" é basicamente o rascunho filosófico de Memórias Póstumas de Brás Cubas. O egoísmo humano, a ilusão de grandeza, a risada final sobre tudo. Se você lê os poemas antes dos romances, acaba entendendo muito mais a estrutura filosófica dele. A ironia não nasceu da noite pro dia. Ela amadureceu nos versos primeiro. O segundo livro que eu sempre recomendo é Falenas, de 1876. É o mais frágil dos três, e ele mesmo sabia disso. Mas tem coisas importantes ali, como "O Espinhaço", que mostra uma transformação no tratamento da forma. A métrica fica mais solta, o verso branco começa a aparecer nos bastidores. Não é o mesmo Machado das Crisálidas, mas também não é o mesmo da velhice.

Tem um detalhe técnico que pouca gente nota. Machado estudou métrica clássica profundamente. Ele sabia contar sílabas poéticas como poucos. Se você pegar qualquer soneto dele e fizer a contagem, vai ver que ele segue o padrão com precisão cirúrgica. Isso não é acidente. Era uma escolha consciente. A rigorosidade formal era o contraponto necessário ao cinismo temático. O verso perfeito construía uma ordem que o conteúdo destruía. Essa tensão entre forma e conteúdo é o que sustenta boa parte da poesia dele. Um problema real que eu enfrentei foi tentar montar uma leitura sequencial dos três livros para uma análise que fiz. A edição que eu tinha pela biblioteca não organizava os poemas por data de composição, apenas por coleção. Acabei Gastando dias comparando versões e tentando reconstruir a cronologia. A solução foi consultar o texto crítico do Antônio Candido e cruzar com as datas publicadas nas revistas da época, como A Estação. Foi trabalho de formigueiro, mas valeu. Sem essa datação, você não consegue acompanhar a mudança de estilo dele do romantismo para um neoclassicismo tardio.

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Ao longo dos anos, fui percebendo que os poemas mais duros dele são justamente os menos comentados. "No Limiar", por exemplo, não aparece em nenhuma antologia escolar. E é um dos mais pessoais. Fala de morte, de solidão, de fim. Sem a máscara irônica da prosa. Só o verso cru. Se você quer entender o Machado que escreveu o Diário de Gaetano Badaró, esse é o caminho. Existem edições boas disponíveis. A de José Guichon, da Companhia das Letras, é sólida. Também tem a versão da Academia Brasileira de Letras, que inclui notas de rodapé úteis para quem não é especialista. Se for usar pra estudo acadêmico, invista numa dessas. Evita dor de cabeça com versões truncadas ou com cortes arbitrários.

O maior erro que vejo gente cometendo é tratar a poesia de Machado como apêndice da prosa. Não é. É um material independente, com suas próprias regras, seus próprios problemas. Ele mesmo dizia, de forma um tanto autodepreciativa, que a poesia não era seu lugar natural. Mas escrever escreveu, e deixou algo que aguenta discussão séria. Outra coisa: evite ler os poemas isoladamente. Machado constrói diálogos internos entre eles. "Soneto de um exilado" responde, de alguma forma, aos versos abertores de Crisálidas. Americanas conversa com Falenas. Quando você lê em ordem, sem pressa, a rede de referências aparece. Leitura apressada perde quase tudo.

Também vale notar que a recepção crítica da poesia machadiana mudou bastante. No início do século XX, muitos escritores modernistas desprezaram os poemas. Tudo muito académico, muito engomad, diziam. Mas a partir dos anos 1970, com o trabalho de críticos como Luís Costa Lima e Carlos Alberto Faraco, a poesia passou a ser revisitada com mais atenção. Hoje se reconhece que o suposto conservadorismo formal escondia experimentações reais, especialmente em Falenas. Se você está começando agora, minha recomendação prática é: leia Crisálidas inteira, pausadamente, dois ou três poemas por dia. Anote os que mais te incomodam. Depois vire pra Americanas e repita o processo. Quando chegar em Falenas, você já vai ter desenvolvido o ouvido certo. A mudança de tom é brutal, e sem essa preparação você não vai sentir.

Não existe segredo maior que esse. Machado não escrevia para agradar. Escrevia porque precisava. O resultado são poemas que não facilitam a vida de quem lê, mas que pagam o investimento. A poesia dele exige tempo, e o tempo é o único recurso que funciona. Procure pelo termo machado de assis poema em sites de literatura brasileira, na biblioteca digital do MEC, ou em repositórios universitários. Há edições gratuitas e verificadas. Use-as. Não perca tempo com versões piratas que cortam trechos ou erram pontuação.

onde encontrar os textos completos

A Fundação Casa de Rui Barbosa mantém online boa parte da produção machadiana, incluindo cartas e manuscritos. Para os poemas propriamente ditos, a Editora Globo lançou uma coletânea em 2022 com introdução de Luiz Paulo Ricardi. É cara, mas definitiva. Quem não pode adquirir essa versão, encontra os três livros completos na Coleção Brasiliana, da Universidade de São Paulo, disponível gratuitamente no repositório institucional deles.