Machado De Assis Obras - Machado de Assis - Biografia, carreira e principais obras do escritor
Machado de Assis - Biografia, carreira e principais obras do escritor

Quem quer encarar o Brasilão do Machado sem chorar

Machado de Assis é uma chaticice obrigatória na faculdade de letras, mas também é o autor mais subestimado da literatura brasileira. As pessoas falam dele como se fosse um monumento de mármore, quando na verdade ele era um cara que zombava de tudo, inclusive de si mesmo. Seus romances não funcionam como os europeus do século XIX. Ele quebra a quarta parede, narradores não confiáveis, final aberto que deixa o professor de seminário com um nó na garganta.

Principais machado de assis obras

Vou listar o básico primeiro, porque todo mundo pede isso. Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) — o romance que mudou tudo no Brasil. Narrado por um morto. Não é metáfora, é literalmente um defunto contando a vida dele. Quincas Borba (1891) — aqui entra o Humanitismo, a paródia da filosofia de Hobbes que o Machado inventou pra escorraçar o positivismo da época. O professor Cornélio que se acha Napoleão. A Divina Comédia (1882) — conto curto, um homem que se recusa a comer os pratos preparados pela esposa apaixonada. 40 páginas que vão te deixar com medo de pedir macarrão no restaurante. Pai contra Mãe (1878) — polêmica sobre educação dos filhos, mas na prática é um estudo de ego masculino em colapso. Helena (1876) e Ismália (contos) — romances mais tradicionais, mas ainda assim cheios de reviravoltas que desmontam o leitor ingênuo. Os contos de Paul-Celi e Várias Histórias também são essenciais. O Machado não escrevia só romance. Muitos dizem que nos contos ele é ainda mais afiado, talvez porque o formato curto não dá espaço pra preguiça intelectual.

Como ler Machado sem perder a sanidade

Aqui é onde a maioria falha. O Machado não escreve como Eça de Queirós, que pelo menos mantém a ilusão realista até o fim. Machado te olha na cara e diz que aquilo tudo é construção. Se você entra nos livros dele esperando uma narrativa linear com herói e vilão, vai se dar mal. O truque é aceitar que o narrador é um personagem, não um Deus onisciente. No Brás Cubas, o narrador sabe que está mentindo. Ele admite. Ele se flagra contradizendo. Isso é o que diferencia o Machado do resto da turma do realismo. Eu já vi aluno de graduação gastar três semanas tentando encontrar "a mensagem moral" do romance, quando a mensagem é exatamente que não tem mensagem nenhuma — tem ironia, sí, e talvez um pouco de melancolia disfarçada de deboche.

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O problema prático que eu encontrei: ao preparar uma análise para um seminário sobre o Humanitismo em Quincas Rubra, caí numa armadilha clássica. Achei que o Humanitismo era a filosofia do livro, quando na verdade é a filosofia que o Machado está satirizando. Passei duas semanas escrevendo uma análise que tratava a obra como se fosse defesa do relativismo social, quando o texto inteiro está escorraçando essa ideia. O que me salvou foi reler o capítulo em que o Raimundo diz explicitamente que o Humanitismo é "o egoísmo alheio elevando-se a lei". Aí eu percebi: o Machado não defende nada, ele expõe. Depois disso, minha análise ficou duas páginas em vez de dezessete.

Edições: qual escolher

O texto do Machado é acessível hoje em dia sem precisar comprar edições de luxo. A Editora Garnier tem versões baratas que funcionam bem. A Companhia das Letras também lançou edições bonitas, mas o essencial é ter notas de rodapé explicativas, porque o Machado faz referência a coisas que nenhum brasileiro comum dos anos 2020 conhece mais — nomes de políticos, filosofias da época, costumes que sumiram. Se você for estudar para concurso ou vestibular, invista numa edição comentada. O Machado de Assis obras completas da Academia Brasileira de Letras são completas demais pra ler de uma vez, mas úteis como consulta. Eu pessoalmente fico com a versão da Companhia das Letras para leitura fluida e a da Garnier pra cópia de trechos em provas.

O que ninguém te conta sobre Machado

Primeiro: Machado foi o primeiro escritor brasileiro a ter projeção internacional séria. Ele era conhecido em vida na Europa, algo raríssimo para um autor brasileiro da época. Não foi sucesso póstumo, como muitos pensam. Segundo: a língua dele é mais simples do que parece. Não é um português arcaico que trava. É preciso, mas acessível. O desafio é a camada de ironia, não o vocabulário. A maioria dos alunos trava achando que precisa decificar cada frase como se fosse latim, quando na verdade o texto é direto — o que acontece depois da frase é que é complicado.

Terceiro: não existe interpretação única. O Machado escreveu de forma tão aberta que qualquer leitura subsequente é válida desde que tenha lastro no texto. Já vi analistas dizerem que Brás Cubas é um crítico do republicanismo, outros que é um memorialista amoral, outros que é uma sátira ao romanticismo brasileiro. Todos estão certos, todos estão errados. O livro permite. Se quiser recomendação de por onde começar: comece por Memórias Póstumas. Se não gostar, tente Várias Histórias. Se não gostar de Várias Histórias, talvez o Machado não seja o seu autor mesmo, e tudo bem.