O que estudar e por onde começar
Achei a bibliografia de Foucault mais confusa do que deveria ser. Os livros dele se conectam de um jeito que não fica explícito na contracapa. A ordem cronológica de publicação não é a ordem lógica de leitura, e muitos tradutores brasileiros escolheram títulos diferentes dependendo da editora e do ano. Se você procurar livros de michel foucault em alguma sebo ou loja online, vai notar que as edições variam muito — o que explica por que gente nova no assunto acaba comprando dois livros que falam da mesma coisa com nomes diferentes.
livros de michel foucault — ordem prática de leitura
O problema que eu tinha era simples: comecei por MIC (História da Sexualidade) porque todo mundo cita, e travou. O texto exige que você já tenha uma noção dos conceitos que ele construiu nos livros anteriores. Não dá para entender a biopolítica sem ter passado por Surveiller et Sanctionner, e não dá para entender os dispositivos de poder sem antes ver como a loucura foi tratada em Histoire de la folie. A ordem que funcionou pra mim foi esta:
1. História da Loucura na Idade Clássica (1961) — este é o livro-base. Foucault mostra como a exclusão dos loucos não é um acidente moral, mas uma operação estrutural da razão ocidental. A edição da Edipro ou da Brasiliense costuma ser boa. Cuidado com traduções mais antigas da Cultrix, que cortaram trechos importantes do prefácio. 2. O Nascimento da Clínica (1963) — aqui ele aplica o mesmo método à medicina. O conceito de "olhar médico" aparece pela primeira vez. É curto, mas denso. Li esta edição em francês primeiro porque a tradução brasileira às vezes perde o sentido de "regard" — que não é só "olhar", é toda uma arquitetura da percepção.
3. A Ordem do Discurso (1970) — são onze aulas que ele deu no Collège de France. É onde o conceito de "dispositivo" começa a tomar forma. A edição da Loyola é a mais acessível. O problema é que muitas pessoas pulam este livro e vão direto para os estudos sobre governo, e aí perdem a base teórica. 4. arqueologia do saber (1969) — o livro metodológico. Foucault explica como ele faz análise discursiva. Muita gente acha chato, mas é o manual de instruções. Sem isso, você vai ler os outros livros e achar que ele está só fazendo história das ideias. Não está. Ele está cartografando regimes de verdade.
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5. Vigiar e Punir (1975) — o mais famoso. Corpo disciplinar, biopoder, sociedade disciplinar. A tradução da Papirus é a padrão, mas a edição da Editora Vozes também é competente. Li versão em espanhol da Paidós que tinha notas de rodapé melhores — vale a pena comparar se o português deixar dúvida. 6. História da Sexualidade, Vol. 1: A Vontade de Saber (1976) — aqui ele introduz análise da biopolítica. O erro comum é achar que o livro fala só de sexualidade. Fala de poder produzindo sujeito. A tradução da Loyola é a mais usada, mas a da Martins Fontes tem melhor aparato crítico.
7-9. Histórias da Sexualidade vols. 2 e 3 (O Uso dos Prazeres, 1984; A Coragem da Verdade, 1984) — a virada para a ética e o cuidado de si. Muitos leitores param no vol. 1 e perdem o melhor. O volume 2 é onde Foucaul mostra que o poder não é só repressivo, ele também produz formas de subjetivação. O volume 3 fecha o ciclo com uma reflexão sobre verdade e sujeito. 10. Os Anormais (1974) e Segurança, Território, População (1977-78) — estas são as aulas do Collège de France, publicadas postumamente. Os primeiros dois volumes das Microfísiques du pouvoir reunem textos soltos que são essenciais. Eu tive problema com a editora L&PM, que publicou edições com capítulos fora de ordem. Verifique sempre o índice antes de comprar.
Pegadinhas comuns ao montar a coleção
Uma coisa que ninguém avisa: o Collège de France publicou uma série de cursos com o título "História da Sexualidade" que não têm relação direta com a trilogia dos livros. São aulas diferentes. Já vi gente comprar os três livros da trilogia e depois os cursos do Collège achando que eram a mesma coisa. Não são. Os cursos são complementares, mas não são a obra publicada por Foucault em vida. O outro problema prático: algumas editoras brasileiras publicam antologias com títulos como Microfísica do Poder que pegam textos soltos e colocam juntos. O texto é bom, mas a edição costuma não indicar a fonte original de cada capítulo. Se você quer citar academicamente, precisa ir ao original francês ou à edição crítica alemã (Suhrkamp), que é a referência padrão mundial.
Se o objetivo é estudo sério, sugiro começar com as traduções da Loyola e da Papirus, que têm melhor aparato crítico. Para pesquisa avançada, vá para as edições francesas da Gallimard (Bibliothèque de la Pléiade), que são as únicas com notas filológicas completas. O custo é mais alto, mas a diferença é enorme quando você precisa acompanhar as citações que Foucault faz de autores clássicos. Li uma versão digital de Vigiar e Punir que tinha erratas de digitação em páginas chave — uma passagem sobre a anatomia política do corpo estava com um parágrafo cortado pela metade. Recomendo sempre comparar com pelo menos duas edições impressas antes de confiar numa digital.
O conjunto todo leva de 6 a 8 meses de leitura atenta, dependendo da velocidade. Não adianta apressar. Os conceitos se constroem uns sobre os outros, e pular livro deixa buracos que comprometem a compreensão do resto.