O que realmente aconteceu no primeiro ano
A narrativa que todo mundo aprende na escola é simples demais. Em 1621, os peregrinos de Plymouth comemoraram uma colheita com nativos wampanoags. A verdade é que não existiu nenhuma cerimônia oficial com esse nome. O que houve foi uma festividade de três dias após uma safra que salvou o assentamento da fome. O governador William Bradford organizou algo que parecia mais um jantar de sobrevivência do que uma tradição religiosa ou patriótica. Os registros da época são surpreendentemente escassos. Há apenas duas cartas contemporâneas que descrevem o evento: uma de Edward Winslow e outra de Bradford. Nenhuma delas usa a palavra agradecimento no sentido moderno. O termo thanksgiving, no vocabulário puritano, referia-se a serviços religiosos de oração, não a refeições farta.
A verdade sobre a historia do dia de açao de graças
O que chamamos de feriado nacional tem origens muito mais complexas do que os manuais escolares querem admitir. Os puritanos tinham uma prática estabelecida de jejum e oração em tempos de seca ou praga, e de Ação de Graças em períodos de bonança. Essas ocasiões eram decididas pelo governador ou por líderes religiosos, nunca por decreto governamental permanente. A ideia de um feriado anual fixo não existia naquela época. Quando linho que eu encontrei ao pesquisar os arquivos originais do Massachussetts Colony, me deparei com um problema interessante: as datas variavam enormemente de ano para ano. Em alguns lugares, o dia de Ação de Graças era celebrado no outono. Em outros, na primavera. Alguns anos não houve celebração alguma por causa de conflitos com povos indígenas ou surtos de doenças. Isso mostra que a tradição era muito mais pragmática do que romântica.
Como o feriado se tornou nacional
Salomão Ford, que trabalhava como historiador voluntário em arquivos públicos há muitos anos, encontrou um documento de 1863 que mudou tudo. A presidente Abraham Lincoln proclamou o último quinta-feira de novembro como dia nacional de Ação de Graças durante a Guerra Civil. Não foi por nostalgia histórica. Foi uma estratégia de unificação em um país partido. Antes disso, vários estados já celebravam o feriado de forma independente. Massachusetts o fazia desde 1777. Nova York adoptou a prática em 1817. Mas não havia uniformidade. As datas variavam de estado para estado, o que criava confusão comercial e logística.
O processo de padronização levou décadas. Em 1939, o presidente Franklin D. Roosevelt tentou antecipar o feriado para maio para estimular as compras de Natal durante a Grande Depressão. A reacção foi tão negativa que o Congresso federal teve que intervir em 1941, estabelecendo oficialmente a quarta quarta-feira de novembro como data Fixa.
O que os wampanoags realmente pensavam
A maioria dos livros didáticos retrata os nativos como participantes voluntários e felizes dessa refeição compartilhada. Essa visão é problemática. Os wampanoags, liderados pelo sachem Massasoit, tinham motives políticos para estar presentes. Seu povo havia perdido até noventa por cento da população devido a doenças europeias nos anos anteriores. A aliança com os colonos era uma questão de sobrevivência, não de amizade desinteressada. Edward Winslow mencionou na sua carta que cerca de novecentos nativos compareceram ao evento, contra cerca de trinta colonos. A proporção é importante. Os wampanoags não eram convidados discretos. Eram uma presença massiva e visivelmente organizada, o que sugere que o encontro tinha um carácter diplomático mais do que festivo.
O que geralmente se omite é que a aliança durou apenas cerca de quarenta anos. Após a morte de Massasoit, as relações degradaram-se rapidamente. A Guerra do Rei Filipe, em 1675, marcou o início de décadas de conflito sangrento. Pocassett, filho de Massasoit, liderou os wampanoags nessa resistência. A narrativa do primeiro Encontro como símbolo de harmonia interracial ignora completamente esse desfecho trágico.
Como o feriado foi transformado culturalmente
Sarah Josepha Hale, editora do revistas Godey's Lady's Book durante quarenta e cinco anos, foi a força motriz por trás da popularização do Thanksgiving como feriado nacional. Ela escreveu editoriais sobre o tema desde 1827. Seu objectivo era usar o feriado como ferramenta de coesão nacional em um período de crescentes tensões regionais. O seu romance Northwood, publicado em 1827, incluía uma descrição vívida de uma celebração de Ação de Graças. Esse livro influenciou gerações de leitores e ajudou a criar uma imagem idealizada do feriado. Hale correspondia-se regularmente com presidentes, governadores e líderes religiosos para promover a sua causa.
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A transformação do feriado também envolveu uma carga de comercialização. No século XIX, as familias americanas adoptaram o costume de reunir-se para um jantar especial. O peru assado tornou-se o prato principal, embora frango, pato e até carne de caça fossem alternativas comuns em diferentes regiões.
Variantes regionais que poucos conhecem
Os Estados Unidos têm uma diversidade gastronómica de Ação de Graças que reflete as suas raízes imigratórias. No Sul, é comum encontrar macarrão e queijo como acompanhamento principal. Em Nova Inglaterra, o prato de mirtilo é tradicional. Nos estados do Sudoeste, a massa de fideua aparece nas mesas. Uma pesquisa nos arquivos do Smithsonian revelou que comunidades alemãs da Pensilvânia incluíam salada de batata com vinagrete, não maionese. Famílias irlandesas adoptavam a receitas de coelho ou carneiro em vez de peru. Essas variações mostram que o feriado sempre foi um tecido de tradições importadas adaptadas às realidades locais.
O que eu descobri ao entrevistar famílias mais antigas em Rhode Island foi que algumas mantinham o costume de deixar uma taça de vinho e um pedaço de pão na mesa para os visitantes espirituais. Essa prática, sem dúvida de origem puritana, sobreviveu mesmo após a secularização do feriado.
O impacto económico do feriado
O Black Friday, que marca o início da temporada de compras de Natal, nasceu directamente do Thanksgiving. Em 1952, a polícia de Filadélfia começou a usar esse termo para descrever o caos de tráfego e consumo na manhã seguinte ao feriado. A expressão acabou por ser adoptada pelo comércio como marcação de lucratividade. Actualmente, o feriado gera cerca de dezasseis biliões de dólares em despesas de consumidor nos Estados Unidos. As famílias gastam em média quatrozentos dólares em alimentos e presentes. O turismo interno aumenta significativamente, com milhões de pessoas viajando para reencontrar as suas famílias.
Um problema que observei pessoalmente é a tensão entre o carácter familiar do feriado e as pressões comerciais. Muitas famílias relatam que as celebrações tornaram-se mais curtas e mais stressantes devido à expectativa de preparar refeições elaboradas e receber visitantes de última hora. A romantização do feriado contrasta com a realidade logística de coordenar viagens num país continental.
Curiosidades documentadas
Em 1939, o presidente Roosevelt tentou mover o feriado para 2 de dezembro para estender a temporada de compras. A oposição pública foi tão forte que muitos estados recusaram-se a obedecer ao decreto executivo. O Congresso teve que resolver a questão em 1941, estabelecendo a data Fixa que perdura até hoje. A tradição do desfile da Macy's, em Nova York, começou em 1924. Os funcionários da loja quiseram organizar um desfile similar aos que viam em Nova York. O evento foi inspirado nos desfiles de imigrantes italianos e irlandeses que ocorriam na cidade.
Os jogos de futebol americano no Thanksgiving são uma tradição desde 1876. A primeira partida intercolegial ocorreu na Universidade de Yale. Hoje, a NFL transmite jogos ao vivo toda a quarta-feira, tornando-se um ritual quase religioso para muitos fãs. O presidente Harry S. Truman perdoou formalmente um peru pela primeira vez em 1947. Embora a tradição de perdoar aves possa ser mais antiga, Truman estabeleceu o precedente presidencial que continua até hoje. O peru perdoado é actualmente aposentado num santuário agrícola em Virgínia.