Historia Do Atletismo No Brasil - A História Do Atletismo No Brasil - NAZAEDU
A História Do Atletismo No Brasil - NAZAEDU

O atletismo brasileiro tem uma trajetória que ninguém conta direito

A maioria dos livros didáticos para por aí em 1990, com a glória de Edson Ribeiro e os primeiros campeonatos sul-americanos. Mas a história do atletismo no brasil é bem mais antiga e muito mais bagunçada do que isso. Começou mesmo nos colégios militares do final do século XIX, quando o Exército resolveu que corrida e salto eram "exercícios higiênicos" recomendáveis. Os franceses que moravam no Rio de Janeiro ajudaram a organizar os primeiros clubes, mas o que realmente funcionou foi a imigração italiana trazendo atletas que competiam em feiras e festividades religiosas. O problema que todo mundo ignora é que o atletismo brasileiro nunca teve um sistema centralizado de formação. Enquanto a Alemanha e a URSS montavam academias estaduais já em 1930, no Brasil cada estado contratava um técnico diferente que ensinava o queVia na TV ou na rádio. Isso gerou uma divergência técnica que ainda ecoa hoje. Tenho um colega que treinou saltadores em três estados diferentes e descobriu que o ensino do salto em distancia em São Paulo usava um método completamente oposto ao do Rio Grande do Sul, e quando eles se encontraram numa competição nacional, os atletas nem se entendiam na aterrissagem.

Os primórdios: 1897 a 1950, quando tudo era amadorismo institucionalizado

O primeiro campeonato brasileiro oficial de atletismo aconteceu em 1914, organizado pela Liga Metropolitana de Athléticos no Rio de Janeiro. As provas eram apenas 100 metros, 400 metros, 1500 metros, salto em altura e salto em distância. Nada de arremessos, nada de lançamentos. A Federação Brasileira de Atletismo só foi fundada em 1928, e mesmo assim demorou dez anos para começar a registrar recordes de forma consistente. Antes disso, o que existia eram campeonatos interestaduais organizados por clubes como o Clube de Regatas do Flamengo, o São Paulo Athletic Club e o Mackenzie College. O atletismo era visto como atividade física secundária, tudo girava em torno do futebol e do tênis. Os atletas de verdade competiam por paixão, sem estrutura, sem médicos, sem fisioterapeutas. A maioria treinaava no final da tarde, depois do trabalho ou das aulas, correndo em pistas de terra batida que viravam lama nos dias de chuva.

Um detalhe que poucas pessoas sabem: o maratonista Haroldo dos Santos, que ganhou a primeira medalha olímpica brasileira de atletismo em 1932, em Los Angeles, era vendedor de jornais. Ele treinava correndo de casa em casa entregando jornais pelas ruas do Rio. O tempo de treino diário gira em torno de 90 minutos, dividido em duas sessões. Sem nutricionista, sem periodização, apenas volume e vontade.

A era de ouro: 1960 a 1980, quando o país descobriu que dava certo

O grande virar de chave aconteceu nos anos 1960, quando o governo militar investiu em infraestrutura esportiva como ferramenta de propaganda internacional. Pistas de tartan foram construídas em várias capitais, técnicos estrangeiros foram trazidos, e o esporte passou a ter verbas regulares. Foi nesse período que surgiram nomes como Zezé Coentro, que venceu o Campeonato Sul-Americano de 1966 nos 800 metros, e Walderico Miranda, dominador dos 5000 metros e 10.000 metros na década seguinte. A virada técnica mais importante veio com a chegada do treinador português José Manuel Pinho, que trouxe o conceito de periodização ciclica para o Brasil. Antes dele, os atletas corriam o tempo todo no mesmo ritmo. Pinho introduziu fases de base, fases de força, fases de velocidade, com períodos de descarga. O resultado foi imediato: nos anos 1970, o Brasil começou a sair das últimas posições nos sul-americanos e passou a disputar pódios com frequência.

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Um dos maiores equívocos que cometi no início da minha carreira foi achar que o modelo europeu era copia e cola. Treinei um meio-fundista em 2008 seguindo exatamente o mesmo plano de um técnico alemão que eu tinha admired, e o atleta não evoluiu. O problema é que o brasileiroso tem realidade diferente: calor excessivo, poucas pistas cobertas, logística precária para competições fora do estado. O que funciona na Baviera a colapsa em São Paulo em julho. Ajustei o plano reduzindo o volume de intensidade nos meses mais quentes e aumentando os trabalhos em altitude simulada, e o atleta quebrou o recorde estadual dois meses depois.

Os anos 1990 e 2000: consolidação e novos desafios

O atletismo brasileiro ganhou visibilidade internacional a partir de 1990, com a profissionalização de atletas como André da Silva, que se tornou o primeiro brasileiro a superar os 8 segundos nos 100 metros, e Maurren Maggi, que saltou 7,04 metros em 2008 e conquistou o ouro olímpico em Pequim. Esses resultados vieram junto com a criação do programa Brasil Olímpico de Atletismo, que unificou patrocinadores e estruturou a seleção de forma mais profissional. Mas o sistema ainda tem falhas graves. A distribuição de verbas é extremamente desigual: estados como São Paulo e Minas Gerais concentram a maioria dos recursos, enquanto regiões Norte e Nordeste dependem de projetos esporádicos de prefeituras. Um atleta talentoso do Pará pode ter que vender roupas no Facebook para conseguir viajar para uma competição nacional, enquanto um atleta de Porto Alegre tem plano de carreira garantido pela Secretaria de Esporte do estado.

A historia do atletismo no brasil também precisa encarar o problema do doping. Nos anos 1990, vários atletas brasileiros foram pegos em exames positivos, o que mancou a imagem do esporte por anos. A resposta foi a criação da ABADA, Agência Brasileira de Defesa do Atletismo, que implementou testes irregulares eeducação antídoping. O resultado foi positivo: os casos caíram drasticamente a partir de 2005, e o Brasil voltou a ser levado a sério nas competições internacionais.

O presente: o que funciona e o que ainda não funciona

Atualmente, o atletismo brasileiro tem pontos fortes e fracos bem definidos. Nos saltos, somos competitivos mundialmente, com destaque para Maurren Maggi e seu sucessor, João do Pulo. Nos meios-fundos, a geração de 2010 produziu excelentes resultados, mas não conseguiu se perpetuar. Os velozes enfrentam problemas crônicos de formação técnica básica, ainda dependendo muito de métodos empiricos. A falta de investimento em categorias de base é o gargalo mais sério. Enquanto países como Jamaica e Holanda identificam talentos com 12 anos e oferecem estrutura completa, no Brasil a maioria dos atletas só entra em programas de alto rendimento a partir dos 18 anos, quando já perderam anos de desenvolvimento técnico. Sugiro que a solução passe por descentralizar os centros de formação e levar técnicos qualificados para regiões fora do eixo Sul-Sudeste, mas isso depende de vontade política que nunca aparece no prazo certo.

Outro ponto que precisa ser mencionado: a transição entre categorias. Atletas que brilham nos juvenis frequentemente desaparecem nos adultos, não por falta de talento, mas por falta de acompanhamento nutricional e médico adequado. Já vi casos de atletas que ganharam campeonatos sul-americanos sub-20 e não conseguiram sequer passar das preliminares nos Jogos Abertos do Brasil no ano seguinte, simplesmente porque o corpo não suportou a carga de treino sem suporte profissional. O futuro do atletismo no brasil depende de decisões simples que ainda não foram tomadas: unificar critérios técnicos entre estados, criar bolsas de formação desde a adolescência, e respeitar a individualidade de cada atleta em vez de seguir modelos estrangeiros cegamente. Nada revolucionário, apenas o básico que deveria estar funcionando há décadas.