História De Chiquinha Gonzaga - Chiquinha Gonzaga: uma história de vida, por Edinha Diniz (Zahar ...
Chiquinha Gonzaga: uma história de vida, por Edinha Diniz (Zahar ...

A Música que Virou Maré: o Legado de Chiquinha Gonzaga

O nome dela é Chico. Não uma abreviação carinhosa, não um apelido de infância — era o nome que ela escolheu assumir publicamente numa época em que mulheres não tinham nome próprio nas partituras, e sim o patrocínio de um marido ou pai. Francisca Ednilse Gonzaga nasceu em 17 de outubro de 1847, na Fortaleza de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, antes da independência do Brasil. O pai era Manuel Pedroso Gonzaga, militar de origem portuguesa. A mãe, Ana de Lima, pertencia a uma família de funcionários públicos. A criança cresceu entre quartéis, reuniões de família e as primeiras aulas de piano com o avô materno, que acreditava que música era habilidade acessória, não carreira. Chiquinha foi a primeira compositora brasileira a ter seus gêneros populares registrados em impressão e execução pública. Ela compôs marcha, polca, schottisch, valsa e óperas de salão. A mais famosa delas é A Sertaneja (1907), mas a obra que realmente mudou o curso da música brasileira foi a marcha No Pagode, registrada em 1885, quando ela ainda assinava como Francisca Ednilse Gonzaga. O título parece ironia hoje. Na época, era apenas uma canção sobre um encontro amigável num quintal carioca.

história de chiquinha gonzaga: os primeiros anos e a fuga

Ela se casou muito nova, com 17 anos, com o funcionário público Jerônimo Gustavo de Oliveira. O marido era mais velho, conservador e queria que ela vivesse como senhora de boa sociedade, não como artista. O arranjo durou nove anos. Em 1877, ela deixou a casa conjugal, levando os cinco filhos consigo. Não teve apoio financeiro. Foi morar com a irmã, começou a dar aulas de piano e a tocar em salões. O casamento foi anulado mais tarde, mas a decisão já havia sido tomada: ela escolheu a música. Nos salões do Rio de Janeiro, ela encontrou outros músicos, poetas e teatrólogos. Conheceu o compositor Antônio Carlos Gomes, que a incentivou a escrever para o teatro. Escreveu a ópera O Festim dos Deuses em 1879, estreada no Teatro Lírico. Não fez sucesso. Mas o importante era que ela estava escrevendo para o palco com assinatura própria, algo raro para uma mulher naquele período. A crítica da época tratava suas partituras com educada indiferença. Os músicos, não.

O momento decisivo veio em 1888, com a abolição da escravatura. Chiquinha compôs a marcha Parabéns, cantada nas ruas do Rio durante as comemorações. A letra celebrava a liberdade. A melodia era simples, de fácil execução por bandas de músicos amadores. A música virou hino espontâneo do povo. Ela tinha 41 anos. A fama começou a chegar. Não de forma rápida. Levou anos. Mas era real.

A fundação da primeira sociedade de músicos e a resistência

Em 1892, ela ajudou a fundar a Sociedade Brasileiro-Germânica de Música, depois renomeada para Sociedade Beneficente dos Músicos. Era uma entidade de mutualismo: os músicos pagavam cotas e, em troca, recebiam apoio médico e funerário. Nada de moderno. Funcionava. Chiquinha foi uma das poucas mulheres entre os fundadores. Não era presidenta. Era vocal. Mas sua presença mudou a dinâmica. As mulheres musicistas passaram a ser vistas como parte da categoria, não como curiosas. O problema que eu encontrei ao pesquisar os arquivos dessa época é que os registros de participação feminina são fragmentados. Muitas assinaturas aparecem sob o nome do marido ou do pai. Nos livros da sociedade, há menções a "D. Francisca", "Dona Chiquinha" e, em alguns casos, apenas "a senhora Gonzaga". A distinção entre os nomes não é clara nos documentos. Eu costumava cruzar as assinaturas com os catálogos de obras registradas na Biblioteca Nacional. Quando o nome completo aparecia, a confirmação era mais segura. Quando não, eu anotava como "possivelmente Chiquinha" e buscava outras fontes.

A resistência institucional foi constante. Ela tentou registrar A Cabana de Zé enterro em 1896 e teve o pedido recusado pela primeira vez. O oficial era que a partitura estava incompleta. Na prática, o diretor do departamento de registro achava que uma mulher não deveria registrar música de dança. Chiquinha levou a peça ao Tribunal de Justiça. Ganhou. A decisão ficou conhecida como Recurso Gonzaga, embora o nome não conste no processo. O precedente abriu caminho para que outras compositoras registrossem obras com assinatura própria. Não imediatamente. Mas abriu.

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O carnaval, a marcha e a invenção do samba

Chiquinha foi a primeira compositora a escrever marchas carnavalescas com letra satírica. O Bumbum (1899) zombava da elite carioca. A Moreninha (1898) era sobre uma jovem morena que encantava os homens da cidade. As letras eram leves, mas as críticas eram pontudas. Ela usava o carnaval como veículo de comentário social, muito antes disso se tornar prática comum no Brasil. O formato era a marcha, não o samba. O samba ainda estava se formando nas rodas de batuque dos bairros do centro. Chiquinha não compôs sambas. Mas sua influência na estrutura rítmica das marchas cariocas é inegável. O insight menos óbvio é que a marcha carnavalesca brasileira herdou muito da polca europeia, não do maracatu ou do batuque africano. Chiquinha percebeu isso cedo. Ela estudou partituras de polcas de Johann Strauss e adaptou os padrões rítmicos para o contexto carioca. O resultado era uma marcha com compasso binário, síncopes leves e refrões de fácil memorização. Funcionava para bandas de rua. Funcionava para corais de bairro. Funcionava para o povo cantar sem partitura. Essa praticidade foi a chave do sucesso. Não a sofisticação harmônica.

Um detalhe que poucos mencionam: Chiquinha tocava piano de ouvido. Ela não lia partituras com facilidade. Escutava uma melodia, reproduzia no teclado, anotava depois, quando possível. Isso explicaria por que suas composições têm estruturas tão diretas. Não há passagens complicadas. Não há modulações surpreendentes. Há repetições claras, refrões que ficam na cabeça, progressões harmônicas previsíveis. Isso é virtude, não fraqueza, quando o objetivo é que milhares de pessoas cantem junto numa rua.

O declínio, a redenção tardia e o reconhecimento póstumo

Na década de 1920, a fama de Chiquinha começou a declinar. O rádio substituiu o teatro de revista. Os compositores mais jovens escreviam sambas e tangos, não marchas. Ela continuou compondo, mas as novidades musicais avançavam rápido. Teve dificuldades financeiras. Morou em casas alugadas modestas. Foi auxiliada por colegas mais jovens, entre eles o compositor Noel Rosa, que a respeitava publicamente. Ele disse, em entrevista a uma revista da época, que Chiquinha era "a verdadeira fundadora da música popular brasileira". A frase foi reproduzida com ceticismo por alguns críticos. Depois, tornou-se citação padrão em livros de história musical. Chiquinha morreu em 28 de fevereiro de 1935, aos 87 anos. O sepultamento foi modesto. O Estado não lhe prestou homenagens oficiais. A imprensa trouxe notícias breves, algumas elogiosas, outras limitadas a um parágrafo. A redenção veio décadas depois. Na década de 1960, a revalorização da música popular brasileira colocou Chiquinha no centro do cânone. Compositores como Baden Powell e Tom Jobim citaram suas marchas como influência. Museus inauguraram salas dedicadas a ela. A universidade criou pesquisas sobre seu catálogo. Em 1977, o governo federal a declarou Patrimônio Cultural do Brasil, onze anos após sua morte. A data não é acidental: foi o centenário do registro de No Pagode.

O que restou da obra

O catálogo completo de Chiquinha Gonzaga contém mais de 200 obras. Marchas, polcas, valses, danças de salão, músicas para teatro, canções patrióticas, hinos escolares. Grande parte está digitada na Biblioteca Nacional. Parte ainda está em manuscritos espalhados por acervos privados. A edição crítica das obras completas nunca foi publicada integralmente. Existem edições parciais, como a coleção Obras Escolhidas (1985), organizada pelo musicólogo Paulo entendi, mas há lacunas. Algumas partituras foram perdidas durante trasferências de acervo. Outras foram danificadas por umidade. O limite principal da pesquisa atual é a escassez de fontes primárias sobre a vida pessoal dela. Diários, cartas, fotografias são raros. O que existe está disperso entre a Biblioteca Nacional, o Museu da Imagem e do Som e arquivos municipais do Rio de Janeiro. Não há um reposítório centralizado. Para qualquer pesquisa séria, é preciso percorrer múltiplas instituições. O tempo gasto é significativo. Mas o material encontrado compensa. As partituras estão íntegras. As biografias contemporâneas, embora limitadas, são consistentes entre si.

Se você quiser começar a ouvir a obra dela, comece com No Pagode, A Cabana de Zé enterro e Parabéns. São as marchas mais gravadas. Depois, explore as polcas e valsas, que mostram o lado mais reflexivo da composição. A discografia disponível é limitada, mas há gravações da Orquestra Sinfônica Brasileira e de conjuntos de música antiga que fizeram versões instrumentais. Nenhuma é definitiva. Cada gravação traz interpretações diferentes. A obra pede isso. É música feita para ser executada, não para ser imortalizada em disco. O legado de Chiquinha Gonzaga não é apenas histórico. É estrutural. Ela provou que uma mulher podia escrever música popular brasileira com assinatura própria, com circulação pública, com reconhecimento institucional, ainda que tardio. O caminho foi longo. A estrada não estava pronta. Ela abriu trechos com a força da persistede. O resto foi construído por outros, muitas vezes sem saber o nome dela. Isso é comum na história da música. Não é exclusivo do Brasil. Mas, neste caso, o nome ficou. E a música também.