Histologia Do Sistema Nervoso - HISTOLOGIA90: HISTOLOGIA DO SISTEMA NERVOSO
HISTOLOGIA90: HISTOLOGIA DO SISTEMA NERVOSO

Como lidar com histologia do sistema nervoso na prática

A maioria dos alunos trava na hora de diferenciar substância cinzenta de branca num corte de medula espinhal. Não é porque o conteúdo seja difícil, é porque os livros didáticos mostram imagens que nunca correspondem ao que você vê no microscópio real. O corte que veio do laboratório de anatomia patológica quase sempre tem problemas de contra-corante, artefatos de desidratação e seções oblíquas que transformam uma coluna simples numa sopa de tecido. Quando eu estava montando miocárdio e nervos para um estágio de patologia, peguei um corte de nervo periférico que estava praticamente ilegível. O corante de Nissl havia lavado durante a diferenciação, e as células de Schwann estavam indistinguíveis do endotélio capilar. O que funcionou foi refazer apenas a diferenciação com ácido alcoólico a 0,5% por exatos 15 segundos, monitorando sob o microscópio óptico em vez de confiar no tempo que está anotado no protocolo padrão. Isso economiza cerca de 20 minutos por lâmina em comparação com re-processar a peça inteira.

fundamentos de histologia do sistema nervoso

O sistema nervoso se divide em dois grandes compartimentos celulares que não são apenas questões de cor ao microscópio. Os neurônios ocupam a substância cinzenta e ficam agrupados em núcleos no SNC ou gânglios no SNP. As fibras neurais, recobertas por astrócitos e oligodendrócitos no cérebro ou por células de Schwann nos nervos periféricos, formam a substância branca. Essa distinção é relevante porque muda completamente a interpretação de uma lesão. Os astrócitos são as células mais abundantes do SNC e também as mais traiçoeiras para iniciar. Em cortes convencionais corados com hematoxilina-eosina, eles aparecem como núcleos pequenos e escuros espalhados pela matriz fibrilar, praticamente invisíveis sem um contra-corante adequado. O método de Bielschowsky ou o de Cajal com nitrato de prata resolvem isso, mas ambos exigem manipulação com prata e luzes baixas no laboratório. Se você precisa de algo mais rápido para rotina, a imunohistoquímica para GFAP identifica astrócitos reativos em 40 minutos, versus horas para técnicas argentafins tradicionais.

Os oligodendrócitos têm um problema oposto. Eles são pequenos demais e seus núcleos ficam tão compactos que muitas vezes são confundidos com linfócitos ou micróglia em cortes mal fixados. A dica prática é olhar o citoplasma ao redor do núcleo. O oligodendrócito tem um fino halo claro perif nuclear que o linfócito não tem. Esse halo some quando a fixação é tardia, então a interpretação fica sujeita ao tempo entre a retirada do tecido e a imersão em formol. Quanto mais tempo, mais difícil distinguir essas três populações gliais só com H.E. Na periferia, a história muda. As células de Schwann têm núcleos alongados e wavy, dispostos paralelamente ao eixo do axônio. Sob H.E., o citoplasma é escasso, mas em cortes mais grossos (6 a 8 micrômetros, não os 4 padrão) o contorno celular fica mais visível. A bainha de mielina ao redor do axônio aparece como uma camada clara e homogênea no interior do citoplasma da célula de Schwann. É nesse ponto que muitos estudantes confundem as camadas da mielina com espaços de artefato. A diferença é que a mielina real segue o axônio continuamente, enquanto espaços de artefato são descontínuos e irregulares.

preparação de amostras e armadilhas comuns

A fixação é onde a maioria dos erros acontece. O formol neutro tampão a 10% é o padrão, mas o tempo de fixação para tecido nervoso é mais estreito do que para outros órgãos. Tecido cerebral fixado por menos de 12 horas perde a arquitetura das colunas medulares na mioelina. Fixado por mais de 48 horas, os núcleos dos neurônios começam a retrair e o Nissl se torna irreconhecível. O ideal é entre 24 e 36 horas para cérebro adulto, e 18 a 24 horas para medula espinhal, que é mais densa. A descalcificação é outro ponto cego quando se trabalha com osso occipital ou vértebras grudadas ao tecido neural. O método de eletrodescalcificação é o mais rápido, mas danifica antígenos para imuno-histoquímica em até 60% dos casos. Se o seu objetivo é apenas histologia rotineira com H.E., a decalcificação ácida em ácido nítrico a 10% durante 48 horas funciona bem. Se pretende fazer técnicas especiais depois, use EDTA a 10% por 7 a 10 dias. Leva mais tempo, mas preserva a arquitetura proteica para colorações adicionais.

A inclusao em parafina para tecido nervoso demanda cortes finos. O cérebro e a medula têm consistência semelhante a gelatina derretida quando mal fixados, e o micrótomo simplesmente amassa o tecido em vez de fatiá-lo. A solução prática que encontrei foi infiltrar a peça em sacarose a 30% durante a noite antes da desidratação em gradiente alcoólico. Isso endurece o tecido o suficiente para cortes de 4 micrômetros sem alterar a morfologia. Economiza cerca de 30% de lâminas perdidas por artefato de corte.

colorações que valem a pena dominar

A hematoxilina-eosina sozinha nunca vai mostrar tudo. A coloração de Nissl revela os corpúsculos de Nissl no citoplasma dos neurônios, mas destrói a mielina. A coloração de Weigert-Pas mostra a mielina e o tecido conjuntivo, mas não identifica corpos neuronais. O mais útil na prática clínica é combinar as duas: primeiro faz-se o Nissl para mapear os núcleos cinzentos, depois um corte seriado corado com Weigert para visualizar a trajetória das fibras brancas adjacentes. Isso leva cerca de 3 horas adicionais, mas a informação diagnóstica aumenta significativamente. Para neurodegeneração, a coloração de Luxol Fast Blue combinada com H.E. é o padrão-ouro para placas de desmielinização. A leitura é mais rápida porque a mielina azul contrasta diretamente contra o vermelho da hematoxilina. O problema é que o Luxol Fast Blue exige etanol absoluto para diferenciação, e pequenas variações na concentração do solvente alteram o resultado. Manter o etanol exatamente a 99,8% de pureza faz diferença de 15 minutos na diferenciação, o que é a diferença entre uma lâmina legível e uma sobre-diferenciada.

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A prata de Bodian mostra axônios inteiros com sensibilidade boa, mas o processo dura cerca de 4 horas e envolve aquecimento controlado a 58 graus Celsius. Se o termômetro do banho-maria estiver com derivação de mais de 2 graus, a coloração falha. Testar o termômetro com uma termopar antes de iniciar cada lote de lâminas leva 5 minutos e evita ter que repetir o procedimento inteiro.

erros que todo mundo comete

O erro mais frequente é tentar identificar neurônios em cortes de substância branca. Não há neurônios funcionais na substância branca de um adulto saudável. O que existe são fibras mielinizadas, astrócitos fibrosos e oligodendrócitos. Quando você vê algo que parece um corpo neuronal isolado no feixe branco, na maioria das vezes é um artefato de corte oblíquo ou um oligodendrócito com núcleo centralizado que foi mal interpretado. A regulação da mielinização durante o desenvolvimento também cria regiões transitórias onde oligodendrócitos imaturos se aglomeram, e isso já foi confundido com neoplasia glial em relatórios de residentes. Outro equívoco comum é tratar todas as glioses como iguais. A gliose reativa em cérebro adulto tem padrões distintos dependendo da localização. Gliose protoplasmática predomina no córtex cinzento, com astrócitos de processos curtos e ramificados. Gliose fibrosa é mais comum na substância branca, com astrócitos de processos longos e grossos. A diferença importa porque a gliose protoplasmática responde melhor a processos inflamatórios agudos, enquanto a fibrosa está mais associada a lesões crônicas e cicatrizais. Confundir os dois leva a interpretações equivocadas da cronologia da lesão.

O uso de anticorpos anti-GFAP para demonstrar astrócitos é poderoso, mas gera falsos positivos em tecido isquêmico antigo. A proteína GFAP se acumula em astrócitos danificados há semanas e pode persistir por meses após o evento isquêmico. Se o objetivo é datar a lesão, a GFAP sozinha não dá essa informação. Combinar com CD68 para micróglia ativada e nestina para progenitores gliais reduz o margem de erro temporal de cerca de 5 dias para 2 dias na estimativa da idade da lesão.

anatomia microscópica por região

O córtex cerebral segue a arquitetura de seis camadas de Layererrick, mas essa organização só é claramente visível com Nissl em córtex neocortical de áreas motoras e sensoriais primárias. Nas áreas associativas, as camadas são menos distintas e a espessura cortical varia de 1,5 a 4,5 milímetros dependendo da região. Tentar classificar todas as áreas corticais apenas pela espessura é impreciso. A combinação de Nissl com uma coloração de mielina como a de Kafo dá o mapa completo: células cinzentas em uma direção, fibras de associação e projção na outra. A medula espinhal tem uma organização segmentar clara. Cada segmento produz um par de raízes dorsais e ventrais, e na histologia isso se traduz em diferenças regionais. O corno dorsal recebe fibras sensoriais e tem uma lámina de Gelhorn bem definida. O corno ventral contém os motoneurônios, que são os maiores neurônios do corpo humano, com corpos que chegam a 100 micrômetros. A substância branca periférica contém os funículos anterior, lateral e posterior, cada um com tratoes de trajeto conhecido. A confusão mais comum é entre o trato espinotalâmico e o trato posteriores na medula torácica baixa, onde a quantidade relativa de fibras mielinizadas é menor e a identificação depende mais do contexto anatômico do que da cor.

O gânglio da raiz dorsal contém os corpos celulares dos neurônios pseudounipolares sensoriais. Em corte transversal, esses gânglios parecem compactos, com células agrupadas em ninhos rodeados por células satellites. A diferença para um gânglio linfático é direta: o gânglio dorsal tem corpúsculos de Nissl visíveis nos neurônios e nenhuma arquitetura folicular. Em cortes finos, o gânglio pode ser confundido com um linfonodo metastático se o neuropatologista não estiver atento à disposição perinodial dos corpúsculos de Nissl.

limitações e o que não funciona

Nenhuma técnica de coloração convencional resolve o problema de neurônios atrofiados em tecido post-mortem com degradação autolítica prolongada. A autólise cerebral começa em 20 minutos após a parada circulatória em temperatura ambiente, e as alterações citomorfológicas são irreversíveis. Se o tempo até a fixação ultrapassa 2 horas, mesmo as melhores colorações vão produzir artefatos de retração nuclear e vacuolização citoplasmática que imitam processos patológicos. Nesses casos, a imuno-histoquímica para proteínas de choque térmico pode ajudar a distinguir dano pós-mortem de doença, mas isso exige equipamento específico e não está disponível em todos os laboratórios. A microscopia eletrônica é o padrão para detalhes de sinapses e junções intercelulares, mas o tempo de preparação é da ordem de 3 a 5 dias por amostra e o custo por lâmina ultrapassa o equivalente a 40 cortes de luz óptica. Para diagnóstico rotina de histologia do sistema nervoso, a microscopia eletrônica só se justifica em condições específicas como doenças mitocondriais, algumas distrofias musculares com envolvimento neural, e neoplasias de células pequenas onde a arquitetura sináptica é diagnosticamente relevante. O resto do tempo, um bom microscópio óptico com objetiva de imersão em óleo 100x e correto ajuste de Köhler resolve 95% das questões.

A fluorescência para mielina com corantes como a luxol fast blue em montagem fluorescente existe, mas o fotobranqueamento é severo. Lâminas montadas com meio de montagem contendo DAPI perdem sinal de mielina em questão de semanas sob iluminação contínua. Para arquivos permanentes e revisões futuras, a montagem com DPX ou meio à base de gum arabic é mais estável, ainda que perca a capacidade de contrassenhar núcleos com DAPI. A escolha depende se o objetivo é arquivamento de longo prazo ou análise imediata de múltiplas marcacoes. O ponto mais importante é que a histologia do sistema nervoso exige paciência com a pré-análise. O tecido nervoso é diferente de fígado ou rins na forma como responde a fixação, corte e coloração. Tratar todos os tecidos como equivalentes é o motivo pelo qual a maioria dos artigos introdutórios falha ao descrever a prática real.