A questão do guarda-roupa que todo mundo escreve errado
Eu já vi essa palavra escrita de pelo menos quatro formas diferentes em documentos oficiais. A última vez que isso me pegou foi quando estava analisando um edital de licitação e o termo estava como "guardarroupa" sem hífen, o que levou a uma discussão entre os fiscais sobre se o documento precisava de emenda. No fim, resolveu-se com base na gramática normativa, mas perdi duas horas nesse tipo de coisa. A questão é que essa palavra vem do composto por justaposição "guarda" mais "roupa". O primeiro elemento "guarda" é invariável e funciona como morfema derivado do verbo guardar. Quando a língua portuguesa forma esses compostos com "guarda" seguido de substantivo, a regra padrão é usar hífen. Exemplos parecidos: guarda-chuva, guarda-sol, guarda-roupa.
guardarroupa ou guarda-roupa — qual é o certo
O correto, segundo a norma culta, é guarda-roupa, com hífen e separado. A forma "guardarroupa", tudo junto, é um erro de ortografia que aparece com frequência, especialmente em textos informais e em produções de conteúdo digital onde ninguém revisa. Isso não é uma diferença entre português do Brasil e português de Portugal. É uma regra ortográfica que se aplica às duas variantes. O Acordo Ortográfico de 1990 não alterou essa formação composicional, então a forma com hífen permanece como a recomendada pelos dicionários de referência: Novo Dicionário da Língua Portuguesa de Aurélio, Houaiss, Caldas Aulete.
O que acontece na prática é que muita gente trata o termo como um vocábulo único por familiaridade. Você vê ele em placas de lojas, em listas de móveis, em posts de redes sociais, sempre colado. Isso cria uma pressão social contra a forma hifenizada. Mas pressão social não é norma ortográfica. Um detalhe que poucos sabem: existe uma justificativa etimológica interessante. "Guarda" aqui não é o particípio do verbo guardar num sentido literal de "aquilo que guarda roupas". É um elemento composicional que vem do francês antigo "garde", com a função de especificar a do objeto. Então "guarda-roupa" significa basicamente "estante/Armário de roupa". O hífen marca essa fronteira morfológica entre os dois componentes do composto.
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Outra coisa que as pessoas confundem: esse caso é diferente de palavras que o Acordo Ortográfico de 1990 obrigou a escrever sem hífen, como "microondas" ou "semfreio". O guarda-roupa não caiu nessa categoria porque a composição dele não se enquadra nos critérios de fusão lexical que o acordo estabeleceu. O primeiro elemento "guarda" mantém sua identidade morfológica independente, e por isso o hífen continua sendo necessário. Na minha experiência revisando textos, o erro mais frequente não é apenas escrever junto, mas também colocar hífen onde não deveria. Tem gente que escreve "guarda roupa" sem hífen, achando que são duas palavras independentes. Esse também está errado. A forma correta exige o hífen: guarda-roupa.
Se você estiver digitando em português e tiver dúvidas, a maneira mais segura é consultar o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) da Academia Brasileira de Letras. Lá a entrada é clara: guarda-roupa. Não tem ambiguidade. O problema real é que muitos processadores de texto, incluindo o corretor padrão do Google Docs e do Microsoft Word em configurações básicas, aceitam a forma "guardarroupa" sem marcar como erro. Isso reforça o uso incorreto porque o usuário acha que está certo. Configure seu corretor para português do Brasil com nível de verificação gramatical ativo, e até aí você vai perceber que a maioria dos editores ainda não leva essa regra a sério automaticamente.
Resumindo de um jeito que não precisa de resumo: escreva sempre guarda-roupa com hífen. O resto é ruído.