Fungos E Os Alimentos - G1 - Fungos são utilizados na produção de alimentos para os humanos ...
G1 - Fungos são utilizados na produção de alimentos para os humanos ...

Contaminação fúngica em produtos alimentícios: o que realmente acontece

A presença de fungos em alimentos não é apenas uma questão visual ou de odor. Micotoxinas podem se acumular em concentrações que não alteram propriedades organoléticas perceptíveis, mas representam riscos reais à saúde. A Aspergillus flavus, por exemplo, produz aflatoxina B1 em grãos armazenados com teor de umidade acima de 14%, mesmo quando o ambiente parece seco ao toque. Já a Penicillium expansum gera patulina em maçãs e derivados, e a contaminação pode estar distribuída heterogeneamente pelo lote. O que muita gente ignora é que fungos xerófilos, como os gêneros Eurotium e Aspergillus glaucus, conseguem crescer em atividades de água (aw) tão baixas quanto 0,62. Isso significa biscoitos, pães industrializados, geleias e até mel podem ser veículos, mesmo quando o produto não apresenta sinais óbvios de deterioração. O teste rápido de cheiro ou inspeção visual raramente é suficiente para descartar risco em matérias-primas compradas de fornecedores distintos.

Fungos e os alimentos: métodos práticos de controle

O padrão ouro na identificação continua sendo a cultura em meios seletivos, como AGAR DEXTRÓSATO CREME, seguido de confirmação molecular quando necessário. Mas antes de chegar nessa etapa, existem etapas intermediárias que cortam tempo e custo. A microscopia direta com claralúgol ou azul de lactofenol permite triagem em questão de minutos, distinguindo esporos de leveduras de hifas fúngicas típicas. Se o laboratório tiver espectrofotômetro ou cromatógrafo, a quantificação de aflatoxinas por HPLC com colunata de imunoadbente (Immunaffinity Column) reduz o tempo de análise de cerca de 8 horas para aproximadamente 45 minutos, dependendo da preparação da amostra. Para quem trabalha com produção de pequeno ou médio porte, a ideia de enviar tudo para laboratório terceirizado parece óbvia, mas o turnaround costuma ser de 5 a 10 dias úteis. Em operações onde o estoque gira rápido, esse atraso já gera perda financeira antes mesmo do resultado. Uma solução viável é usar kits de ELISA para triagem in house. Eles têm sensibilidade na casa de partes por bilhão (ppb) e custo por teste entre 15 e 30 reais, dependendo do fornecedor. O problema é que testes positivos por ELISA precisam ser confirmados por método referencial, pois há taxas de falso positivo em matrizes com pigmentos naturais fortes, como cacau e pimenta.

Um caso que vi recentemente envolveu um fornecedor de amendoim que apresentava laudos negativos por microdiluição em caldo, mas os lotes provocavam rejeição em linha de produção quando moídos. O problema era que a contaminação estava concentrada em grãos inteiros com rachaduras visíveis, e a técnica de swab superficial não capturava a micotoxina interna. A solução foi moer uma amostra representativa de 500 g, homogeneizar e submeter à extração com acetônio/água, em vez de usar apenas a superfície. Isso mudou completamente o perfil de detecção. Se você está fazendo controle de qualidade e só coletar a casca ou a parte externa, vai subestimar o risco em pelo menos 60% nos casos de grãos oleaginosos. A redução da atividade de água permanece a barreira mais eficaz e economicamente viável. Grãos secos abaixo de 12% de umidade (cerca de aw 0,65) praticamente cessam o crescimento fúngico, embora esporos possam permanecer viáveis por anos. O controle de temperatura e ventilação em silos e paletes é crítico, pois gradientes térmicos de apenas 5 graus Celsius criam zonas de condensação onde a umidade relativa local sobe acima de 85%, disparando floração em pontos específicos. Eu já vi lotes inteiros de milho serem rejeitados porque um único pallet, apoiado sobre palete de madeira reaproveitada com fissuras, desenvolveu foco de Aspergillus na base, contaminando o que estava por cima por arraste de esporos.

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Aditivos antimicrobianos sintéticos, como propionato de cálcio e sódio, funcionam bem em pães e produtos panificados, mas têm ação limitada contra fungos termotolerantes e não eliminam toxinas pré-formadas. Isso é importante: fungicidas e conservantes matam o microrganismo, mas não desintoxicam o produto. A ocratoxina A, presente em café, uvas e cereais, é termestável e sobrevive a processos térmicos convencionais de pasteurização e torrefação. Descartar a etapa de remoção física de grãos defeituosos antes do processamento é um erro comum que já vi comprometer lançamentos inteiros de matéria-prima. Quando o assunto é rotulagem e conformidade com a Instrução Normativa nº 62 do Ministério da Agricultura, os limites máximos para aflatoxinas totais em amendoim são de 20 ppb, enquanto para cereal processado a margem é ainda mais apertada. Mas a norma não cobre todos os fungos patogênicos emergentes, como Fusarium graminearum, cuja trichotecena pode estar presente em trigo e cevada sem sinais visíveis de mofo. O acompanhamento estatístico de tendências de lote a lote, comparando com bases históricas do próprio fornecedor, costuma ser mais revelador do que um único laudo isolado. Variação sazonal de umidade relativa acima de 70% no período de colheita explica a maior parte dos surtos observados anualmente no centro-oeste brasileiro.

A escolha do método de coleta também faz diferença prática. Em pós e farinhas, a recomendação é retirar amostras em diferentes profundidades e pontos do saco, não apenas da superfície. Fungos filamentosos tendem a se instalar em camadas intermediárias onde a umidade migra durante o transporte. Usar sampler pontual ou em grade garante representatividade. Para frutas inteiras, o ideal é coletar por estrato, já que o nível de contaminação fúngica varia drasticamente entre a epiderme, o mesocarpo e a região do pedúnculo. Se você precisa de referência rápida para parâmetros de aceitação por tipo de alimento, a publicação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (RDC 55/2012) estabelece limites para ochratoxina A em café solúvel, vinho e suco de uva, mas os valores variam conforme o destino da mercadoria. Exportação para a União Europeia exige atendimento ao Regulamento (CE) nº 1881/2006, que é mais restritivo em diversos pontos. Conhecimento dessas diferenças evita retrabalho e perda de embarques já no portão de saída.

O ponto final que merece atenção é que monitoramento contínuo substitui melhor a inspeção esporádica. Planilhas de rastreio com data de entrada, lote, umidade medida no recebimento, temperatura de armazenamento e resultado de cada teste criam um histórico que identifica padrões de falha. Um fornecedor que aparece repetidamente com níveis próximos ao limite, mesmo sem ultrapassá-lo, indica necessidade de renegotiar especificações ou alternar base de suprimento antes que o problema se agrave.