O que é cordel, na prática
Cordel é uma forma de poesia popular brasileira que usa rimas simples e métrica regular, geralmente em estrofes de seis versos (sextilhas) ou quatrilhas. O gênero nasceu no Nordeste e se espalhou pelo Brasil inteiro. As pessoas vendem folhetos avulsos em feiras e ruas, contam histórias de cangaço, milagres, amor, piadas do cotidiano. A estrutura básica é mais fácil do que parece. Versos de sete sílabas poéticas. Rima combinada ou alternada. O tema pode seranything que aconteça na vida de uma pessoa comum.
exemplos de cordel simples
Aqui vai um primeiro exemplo bem direto, no estilo que todo mundo encontra em feiras de Caruaru ou no centro do Recife: Sextilha com rima combinada (AAAAAA)
No sertão seco e quente
vivia um vaqueiro forte
que tinha uma carreta
com bois de grande respeito
e um cachorro bem discreto
que latia pra qualquer fato. Quatrilha com rima alternada (ABAB)
A lua subiu no céu
iluminando o terreiro
o menino foi pra bed
deitar no seu catre velho. Perceba que não tem linguagem difícil. Não precisa de referências literárias complicadas. A língua é aquela que se fala no dia a dia, com ajuste métrico para caber nas sete sílabas.
Como montar o seu próprio cordel
O método que eu uso, e que funciona na maior parte das vezes, é o seguinte. Escolha um tema. Qualquer coisa. Uma notícia que você viu, uma história da sua avó, um problema do bairro. Anote em tópicos curtos. Depois transforme cada tópico em versos. A métrica é o que mais trava as pessoas. Sílabas poéticas não contam como sílabas gramaticais. A última sílaba tônica do verso é sempre contada, mesmo que seja átona na fala normal. "O vaqueiro foi pro sertão" — em sílabas poéticas vira o-va-quei-ro foipro-ser-tão = 7 sílabas. O "o" final do verbo conta porque o verso termina em palavra oxítona.
Na prática, eu conto os versos em voz alta, batendo o dedo na mesa. Se o ritmo travar, o verso tá torto. Mude uma palavra. Substitua "carreta" por "carruagem" se precisar ajustar a sílaba. Trocar "vaqueiro" por "boiadeiro" também funciona, mas o som é diferente e às vezes estraga a rima. Um detalhe que muita gente erra: a rima não precisa ser perfeita em todos os versos. No cordel tradicional, versos ímpares muitas vezes não rimam entre si. Só os pares (segundo e quarto, ou todos os seis, dependendo do formato) precisam fechar. Isso dá margem para improvisação. Eu já vi cordéis onde o verso três fica sem rima e ninguém reclama, desde que o resto da estrofe segure o andamento.
Outros exemplos para usar como base
Este aqui é no estilo de repente, com rima alternada em sextilha (AABBCC): O sertanejo atravessou
a pé a estrada de barro
procurando seu bispo
numa festa no Cariri
não achou nem o caminho
nem o motivo do viagem.
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Esse é um caso em que o último verso quebra o padrão de rima propositalmente. Às vezes o autor faz isso para dar um tom de ironia ou de desfecho aberto. Ninguém cobra fechamento perfeito em cordel de temática mais leve. Outro exemplo, mais curto, em terceto (três versos rimados AAA):
A seca chegou cedo
o gado morreu de fome
o vaqueiro foi embora. Terceetos são comuns em introduções de folhetos maiores. Servem para apresentar o personagem ou o cenário antes de entrar na história em si.
Problema que eu enfrentei e como resolvi
Certa vez eu tentei escrever um cordel sobre um protesto no bairro onde eu morava. O problema era que os versos ficavam muito longos. Acontecimentos urbanos têm nomes compridos, verbos em tempos compostos, tudo fica pesado quando você tenta encaixar em sete sílabas. Eu passei duas horas ajustando e nada saía_redondo. A solução foi usar o que eu chamo de "versificação por contração". Eu substituí nomes próprios por apelidos. Troquei verbos no pretérito perfeito composto por formas simples. "Eu tinha ido buscar" virou "eu fui buscar". O verso encolheu de nove sílabas para sete e a rima começou a funcionar. O cordel ficou menor do que eu esperava, mas ficou rimando certo. Melhor assim do que ter um texto bonito no papel que não funciona na hora de ler em voz alta.
Onde baixar folhetos prontos
Se você quer exemplos para estudar, o site da Biblioteca Nacional tem uma coleção digitalizada de folhetos de cordel. A hemeroteca digital também traz edições antigas de revistas que publicavam cordéis. Existem arquivos PDF de autores como Leandro Gomes de Barros e Patativa do Assaré que podem ser baixados gratuitamente. A versão impressa ainda é mais comum. Em feiras do Nordeste você acha folhetos por dois ou três reais. Cada um tem entre oito e sessenta páginas, com xilogravuras na capa. Comprar um exemplar physical ajuda mais do que baixar um PDF, porque você vê a diagramação, o tamanho da letra, a disposição das ilustrações. Tudo isso influencia na leitura.
O que não funciona em cordel
Cordel não gosta de linguagem muito rebuscada. Palavras técnicas, termos acadêmicos, neologismos inventados — tudo soa falso. O gênero exige naturalidade. Se você não consegue dizer a frase em voz alta num bar, provavelmente não serve para cordel. Também não funciona fazer versos com mais de nove sílabas. A tradição aceita até dez em alguns casos, mas a partir daí o ritmo desanda. E nonão adianta forçar rimas perfeitas com palavras que não existem. Rimas pobres (como "amor/dor") são aceitas. Rimas invented são não.
Se o objetivo é apenas brincar com palavras, o cordel pode não ser o formato ideal. Outros gêneros como a quadrinha ou o haicai dão mais liberdade formal. O cordel cobra estrutura. Isso é vantagem e desvantagem ao mesmo tempo. Quando a estrutura aperta, a criatividade precisa apertar junto.
Resumo rápido do processo
Escolha um tema. Escreva em prosa primeiro. Conte as sílabas poéticas de cada frase. Ajuste para sete sílabas usando contrações e substituições. Feche as rimas nos versos pares. Leia em voz alta. Se o ritmo travar, refaça. Repita até ficar liso. Isso leva em média de trinta minutos a uma hora para um cordel de doze estrofes. Se você já tem prática, pode fazer no mesmo tempo em que leva para escrever um parágrafo longo. A parte mais demorada é sempre o ajuste métrico. O resto vem naturalmente.