Quando usar cada tipo de colocação pronominal
A maioria dos materiais didáticos que você encontra por aí explica ênclise, próclise e mesóclise como se fossem três regras isoladas. Na prática, elas funcionam como um sistema. Você não decora qual usar; você lê o contexto da oração inteira e identifica os fatores atraidores. Se tentar memorizar listas infinitas de "palavras que atraem para a próclise", vai travar na primeira frase que foge do manual. Eu passei anos corrigindo textos técnicos e acadêmicos e já vi o mesmo erro se repetindo em documentos profissionais que iam para impressão. A pessoa escrevia "entreguei-lhe o documento" num contexto em que o pronome deveria ficar antes do verbo porque havia uma palavra atrativa. O corretor automático do Word nem sempre pega isso. Tem que ler com atenção.
ênclise próclise e mesóclise: quando aplicar cada uma
Vamos começar pelo básico, mas do jeito que funciona no dia a dia, não do jeito que os livros explicam. Próclise acontece quando há um fator atrativo antes do verbo. Os fatores mais comuns são:advérbios (já, ainda, nunca, só), pronomes relativos (que, quem, onde), conjunções subordinativas (quando, se, embora), negativos (não, nunca, jamais), e os pronomes demonstrativos isto, isso, aquilo. Exemplo: "Nunca me diga isso." O "não" atrai o pronome para antes do verbo.
Um detalhe que poucos mencionam: se o fator atrativo estiver separado do verbo por uma pausa na fala ou por uma vírgula na escrita, a atração pode não se aplicar. Eu já vi editores concordarem que "Nunca, porém, me diga isso" mantém a próclise, mas "Porém nunca me diga isso" também é aceitável. Depende da escola gramatical. O importante é notar que a fluência da frase importa tanto quanto a regra. Ênclise é o padrão quando não há fator atrativo. Verbos no início da oração, imperativo afirmativo e infinitivo flexionado querem o pronome depois. Exemplo: "Diz-me a verdade." Ou "Ao chegar, cumprimente-os."
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Aqui vai um insight que quase ninguém ensina: em português de Portugal, a ênclise é muito mais frequente do que no Brasil. Frases como "Dá-me isso" soam naturais em PT-PT, mas no Brasil ouvimos mais "Me dá isso". Se você está traduzindo ou adaptando conteúdo, saiba que a preferência regional muda completamente a distribuição entre próclise e ênclise. Não existe certo ou errado absoluto, existe registro. Mesóclise é o caso mais simples na teoria e o mais ignorado na prática. Ela ocorre apenas no futuro do presente e no futuro do pretérito (condicional). O pronome se encaixa no meio do verbo: "falarei-lhe", "dar-te-ei", "veríamos-nos". A fórmula é simples: verbo no futuro + pronome oblíquo + travessão + resto do verbo.
O problema é que a mesóclise soa formal demais para a maioria das situações comunicativas atuais. No Brasil, especialmente, muitos falantes nativos evitam usar o futuro do subjuntivo e muito menos a mesóclise. Eu pessoalmente recomendo substituir por construções mais simples quando o contexto não exige formalidade extrema. "Eu lhe falarei amanhã" vira "Vou falar com você amanhã" e o sentido permanece idêntico. Se você realmente precisa usar mesóclise num texto formal, há umapegadinha importante: só use mesóclise quando não houver fator atrativo antes do verbo. Se houver algo que atraia o pronome para a próclise, a mesóclise desaparece e o pronome vai antes do verbo, mesmo no futuro. Exemplo: "Não lhe falarei amanhã." O "não" atrai o pronome. Isso confunde muita gente porque a intuição leva ao erro: "Falarei-lhe" parece certo, mas "Não falarei-lhe" está errado. O correto é "Não lhe falarei."
Já me deparei com um caso real em que um cliente insistia em escrever "Quando eu lhe telefonear, avise-me" em vez de "telefonar-lhe-ei". A mesóclise não se aplica quando há um advérbio ou conjunction subordinativa antes. O "quando" é fator atrativo. O resultado correto seria "Quando eu lhe telefonar, avise-o." A mesóclise simplesmente não entra nessa cena. Outro ponto que merece atenção: a mesóclise com pronomes átonos de terceira pessoa (lhe, lhes) exige cuidado com a regência. "Lhe" é indireto. Se o verbo pede complemento direto, o pronome deve ser "o/a/os/as". Misturar isso gera erro de concordância pronominal. Eu já corrigi relatórios jurídicos onde "O réu lhe responderá" estava errado porque a resposta é direta, não indireta. O correto seria "O réu responderá a ele" ou, na forma pronominal adequada, "Responder-lhe-á" só se o verbo realmente quiser complemento indireto.
Resumindo de forma prática: identifique se há fator atrativo antes do verbo. Se sim, próclise. Se não, e o verbo estiver no início da oração ou for imperativo afirmativo, ênclise. Se o verbo estiver no futuro e não houver fator atrativo, mesóclise. Se houver fator atrativo mesmo no futuro, volte para a próclise. Em contextos informais, prefira a próclise quando possível, pois é mais natural na fala cotidiana do Brasil.