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Dom Casmurro no cinema: o que funciona e o que não funciona

Existem várias adaptações de Dom Casmurro para o cinema e a televisão ao longo dos anos, e escolher qual assistir ou estudar depende muito do que você busca. A mais conhecida é a de 1952, dirigida por Wallace Downey, com Grand Sertão como Bentinho. Mas a que realmente marca presença em discussões acadêmicas e entre cinéfilos é a versão de 2002, produzida pela TV Globo e dirigida por Luiz Fernando Carvalho, com 13 episódios de cerca de 50 minutos cada. Tem também a adaptação de 1968, do diretor Leon Hirszman, que ficou inacabada porque ele morreu antes de terminar. Essa versão merece um olhar separado porque o que existe dela mostra uma abordagem muito mais experimental, quase documentária, com recursos visuais que antecipavam o que a TV acabou fazendo anos depois.

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Se você quer encontrar alguma dessas versões para assistir, a de 2002 costuma aparecer em plataformas de streaming brasileiras e no acervo da GloboPlay. A de 1952 é mais difícil de achar em formato digital de qualidade. Já a de 1968 existe em cópias limitadas, muitas vezes circulando em fóruns e grupos de estudos de cinema brasileiro. Um problema prático que eu encontrei pessoalmente foi tentar assistir à versão de 1968 com legendas em inglês — praticamente não existem. A cópia que eu tinha era em português apenas, com áudio meio embolado. Minha solução foi usar um software de upscaling de áudio e assistir com o volume mais alto do que o normal, o que ajudou, mas não resolveu completamente a questão da inteligibilidade dos diálogos mais antigos. O que muita gente não leva em conta ao abordar essas adaptações é que o livro já é problemático por si só, e adaptar ele é ainda pior. O narrador Bentinho é um fiador duvidoso. Ele conta a história do próprio jeito que quer que seja contada. Qualquer adaptação fiel precisa mostrar isso visualmente, não apenas confiar na narração. A versão de 2002 tenta fazer isso com planos fixos longos e ângulos que colocam o espectador na posição de testemunha questionadora. Funciona em parte, mas ainda assim cai na armadilha de tornar Capitu mais vítima do que o próprio livro permite.

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Outro detalhe técnico que passa despercebido: a adaptação de 2002 usa muita luz natural e locações reais no Rio de Janeiro, o que dá um ar de verossimilhança que algumas cenas dramáticas mais intensas acabam sabotando. Há momentos em que a iluminação fica tão crua que os atores parecem estar em outro registro — o de documentary, não o de drama. Eu cheguei a notar isso assistindo pela terceira vez e percebi que a direção optou por manter takes longos demais, o que gera um ritmo irregular em alguns episódios. O episódio 7, por exemplo, é quase todo construído em um único plano sequência que deveria durar o dobro do tempo que dura na tela. Se o seu interesse é acadêmico ou de estudo, vale a pena comparar as três versões lado a lado. A de 1952 é mais convencional, segue a estrutura linear do livro quase sem desvios. A de 1968 é fragmentada, com inserções de textos e vozes que quebram a quarta parede. A de 2002 é a mais ambiciosa, mas também a que mais discrepâncias mostra em relação ao original de Machado de Assis. Nenhuma delas consegue capturar a ambiguidade central da obra, que é a questão de se Capitu traiu ou não. Isso simplesmente não tem resposta definitiva no livro, e qualquer filme que tente dar uma resposta está, por definição, falhando em algo essencial.

Para quem quer apenas ver uma adaptação competente e acessível, a de 2002 é a recomendação padrão. Mas saiba que o formato de minissérie exige compromisso de tempo. São cerca de 10 horas no total. Se você não tem esse tempo disponível, há cortes editados em DVD que resumem tudo para cerca de 3 horas, mas perdem muita coisa importante nos diálogos e nas construções visuais. Um ponto que poucas pessoas mencionam é o som dessas versões antigas. A de 1952 foi gravada em estéreo falso, comum na época. Assistindo em sistema surround moderno, o efeito é estranho — os diálogos ficam centrados e os efeitos sonoros laterais parecem deslocados. Recomendo usar a configuração de som mono ou estéreo clássico para não criar distrações. Nada a ver com a qualidade da adaptação em si, mas faz diferença no conforto de assistir.