Como usar dito isso e dito isto na prática
As expressões dito isso e dito isto são marcadores discursivos bastante comuns no português, mas muita gente usa de forma confusa ou redundante. A diferença entre elas é menor do que parece, mas conhecer o uso correto evita repetição e deixa o texto mais limpo. Na prática, ambas servem para retomar algo que foi dito anteriormente e sinalizar uma transição, seja para uma conclusão, uma ressalva ou um aprofundamento. O problema é que muitos escritores -- jornalistas, redatores, até acadêmicos -- caem na armadilha de repetir essas expressões em cada parágrafo como se fosse um crachá de formalidade. Eu vi relatórios de dez páginas onde dito isso aparecia seis vezes, o que não só irrita quanto enfraquece a argumentação. Quando você usa a mesma transição repetidamente, o leitor passa a ignorá-la. O efeito é exatamente o oposto do pretendido: a frase perde força e o texto fica monótono.
Qual a diferença entre dito isso e dito isto
Dito isso se refere a algo mencionado antes, em uma direção retrospektiva. Você falou sobre um ponto, resumiu ou aludiu a ele, e então usa dito isso para puxar a conversa para outra direção. É como dizer "com base no que acabamos de discutir". Dito isto tem a mesma função, mas carrega uma nuance ligeiramente diferente: indica que o que foi dito agora mesmo é a base imediata para o que vem a seguir. A diferença é sutil, mas existe. Vou dar um exemplo prático. Imagine que você está redigindo um parecer jurídico. Você termina de descrever os fatos de um caso e precisa passar para a fundamentação legal. Se você escreve "dito isso, analisemos a jurisprudência", está usando a expressão como ponte entre dois blocos distintos. Se fosse "dito isto", estaria enfatizando que a fundamentação decorre diretamente do trecho anterior, quase como uma consequência lógica imediata. Na maioria dos casos, ambos funcionam, mas o segundo cria uma conexão mais forte entre os elementos.
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Eu já passei por uma situação específica em que essa distinção importava. estava revisando um contrato de prestação de serviços e o cliente insistia em usar dito isto em um parágrafo que na verdade se referia a cláusulas mencionadas três páginas antes. O texto ficava ambíguo: parecia que a cláusula em questão se originava do parágrafo imediatamente anterior, quando na verdade era baseada em um texto mais distante. Troquei para dito isso e incluí uma referência explícita à cláusula. A ambiguidade sumiu. Isso não é teoria de livro -- é o tipo de problema que aparece quando se lida com documentos longos e repetitivos. A regra básica, então, é simples: dito isso quando você faz referência retrospectiva a algo dito anteriormente. Dito isto quando o que você acabou de declarar é o fundamento imediato do que seguirá. Use com moderação. Um texto bem construído não precisa de marcações discursivas a cada frase.
Outro ponto que poucos mencionam: dito isso e dito isto não são sinônimos perfeitos de "portanto" ou "logo". Eles não estabelecem relação de conclusão causal, mas sim de continuidade temática. Confundir isso é comum entre estudantes de português que aprendem os conectivos de forma isolada, sem contexto real de uso. Quando você coloca dito isso antes de uma conclusão lógica, o texto fica esquisito. A expressão pede uma retomada, não uma dedução. Também é importante notar que em registros formais, como peças jurídicas ou artigos acadêmicos, o excesso dessas expressões é percebido como manha estilística -- ou seja, um vício de linguagem que os avaliadores notam rapidamente. Editoras e banca de doutorado costumam marcar esse tipo de repetição. O recomendável é usar no máximo uma vez a cada duas ou três páginas, e preferencialmente em momentos de transição efetiva entre seções, não dentro de um mesmo parágrafo.
Se você quer uma alternativa mais variada, há opções que funcionam muito bem e evitam a repetição: com base nisso, nesse sentido, à luz do exposto, diante do contexto. Cada uma tem seu próprio registro e intensidade. Escolher a certa depende do tom do texto e da relação entre os argumentos. Não existe fórmula mágica, mas a prática de ler textos bem escritos ajuda a internalizar quais substitutos soam naturais em cada situação.