Deste Ano Ou Desse Ano - Deste Ano Ou Desse Ano - FDPLEARN
Deste Ano Ou Desse Ano - FDPLEARN

A diferença entre este e esse que todo mundo explica errado

A maior parte dos tutoriais que aparecem no Google sobre deste ano ou desse ano começa com uma tabela linda explicando proximidade e afunilamento. A realidade é mais chata e mais simples. O uso correto depende exclusivamente de onde você está posicionando o interlocutor na conversa, não de qualquer regra gramatical complicada. Quando eu digo "deste ano", estou me referindo a algo próximo de mim, do qual faço parte ou que está sob minha esfera de influência. "Desse ano" se refere a algo próximo do meu ouvinte, que ele domina ou reconhece como relevante para ele. O resto é variação dialetal que muita gente leva a sério à toa.

Esta é a diferença real entre deste ano ou desse ano

Vou dar um exemplo prático porque a teoria pura não ajuda ninguém a lembrar. Imagine que você trabalha em uma empresa e está conversando com seu colega de departamento sobre os relatórios trimestrais. Se você diz "os dados deste ano ainda não foram fechados", está indicando que eles pertencem ao seu domínio, à sua área. Se você diz "os dados desse ano ainda não foram fechados", está transferindo a responsabilidade para o colega, como se aquilo fosse problema dele. Já vi gerente mandar e-mail para diretoria usando "desse ano" quando na verdade os dados eram da própria diretoria. O tom mudou completamente. Não foi sobre gramática, foi sobre política corporativa disfarçada de linguagem.

Outro detalhe que ninguém menciona: em muitas regiões do Brasil, especialmente no Sul e Sudeste, o uso de "desse" como forma genérica para "deste" é praticamente universal na fala cotidiana. Ninguém corrige. Aparece em contratos, em documentos oficiais, em notícias. O português escrito formal segue a norma, mas o português vivido ignora essa distinção há décadas. A questão técnica que importa mesmo é a seguinte. O pronome demonstrativo brasileiro tem três graus de distância: este (perto de quem fala), esse (perto de quem ouve), aquele (longe de ambos). Quando o demonstrativo vem com a preposição "de", basta fazer a contração: de + este = deste, de + esse = desse, de + aquele = daquele. O "ano" é só o substantivo que acompanha. Nada mais.

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O problema é que muita gente confunde com o tempo verbal. "Este ano" não significa automaticamente o ano corrente em todos os contextos. Em documentos legais ou contratuais, "deste ano" pode se referir ao ano em que o documento foi assinado, independentemente de ser 2024, 2025 ou outro. Já li um contrato onde "desse ano" se referia ao ano anterior ao da assinatura porque o contexto da negociação havia sido estabelecido no ano anterior. O redator do contrato tinha razão. A clareza estava na intenção comunicativa, não na data calendarizada. Se você quer usar isso corretamente em textos formais, a regra prática é esta: pergunte-se de quem é a referência. Se a informação pertence ao campo do interlocutor, use "desse". Se pertence ao seu campo, use "deste". Se não há campo definido e você quer ser genérico, o mais seguro é evitar o demonstrativo e usar o artigo simples ou reestruturar a frase. "Os dados de 2024" não erra nunca.

Um erro muito comum que eu vejo repetidamente é usar "deste ano" para se referir ao ano passado quando se está no início do ano seguinte. Alguma coisa no cérebro da pessoa diz "este aqui que acabou de terminar" e ela usa "deste". Não funciona assim. "Deste ano" no primeiro trimestre de 2025 se refere a 2025. Se você quer falar de 2024, use "do ano passado" ou "de 2024". Não adianta insistir em "deste" com a intenção de referir algo que já acabou. Também vale notar que na variante europeia de português, a lógica é um pouco diferente. O "esse" tende a ser mais restrito e o "deste" é usado com mais frequência em contextos onde o brasileiro usaria "desse". Se você vai escrever para um público português, prefira "deste" na dúvida. Para público brasileiro, o uso de "desse" como genérico é amplamente aceito em textos informais.

A única situação em que a distinção é realmente obrigatória e qualquer erro será notado imediatamente é em redações concursais e textos acadêmicos rigorosos. Mesmo aí, o avaliador geralmente leva em conta o contexto. O que realmente costuma cair na banca é o contrário: usar "desse" quando o contexto exige "deste" e vice-versa, criando ambiguidade que compromete a clareza da argumentação. Se você quer uma ferramenta rápida para verificar antes de enviar algo importante, o gram.org tem um corretor funcional, mas ele não é infalível com demonstrativos. Ele tende a marcar como erro o que é apenas variação regional aceitável. Use como referência, não como júri final. O melhor caminho ainda é ler o trecho em voz alta e perguntar se a referência faz sentido para quem vai ouvir.