O que é forró de salão e por que a maioria dos iniciantes trava nos primeiros meses
Forró de salão é uma forma de dança que nasceu dos embates em baiões e xote das festas juninas do Nordeste e se espalhou pelos salões do Sul e Sudeste a partir dos anos 1970. O coreógrafo Zé Eduardo Sabará estruturou os passos num sistema que chamamos hoje de forró universitário, mas na prática o que existe são dezenas de variações regionais e de cada grupo de amigos. Se você entra numa roda de forró hoje em São Paulo, vai ouvir baião, xote, reggae forró e arrastado. A base de tudo continua sendo o mesmo compasso 2/4, mas o modo como os pés trabalham muda drasticamente. A primeira coisa que todo mundo explica errado é a diferença entre a condução do forró de salão e a do tango. No tango, a condução depende quase inteiramente do peito e do core para enviar sinais. No forró, a condução funciona pela pressão do braço na cintura da parceira e pela mudança de peso do corpo. Se você tentar conduzir só com os braços, já era. Na verdade, o erro mais comum que eu vejo é o cavalheiro apertar a mão da dama com força excessiva no braço dado. Isso trava o movimento dos ombros e a parceira não consegue fazer as variações de quadril que o passo pede. A correção é simples: segure o braço dela com leveza, como se estivesse segurando um pássaro, e deixe o tronco fazer o trabalho.
Como aprender dança de salão forró do zero sem perder tempo
Eu comecei a aprender forró de salão em 2008, numa academia em Curitiba que tinha piso de madeira e iluminação ruim. O instrutor era um cara chamado Toninho que nunca tinha ouvido falar de pedagogia, mas sabia o corpo humano como ninguém. O método dele era brutalmente simples: aprende o passo básico antes de qualquer gira, aprende a marcar o tempo com o pé antes de soltar o braço da parceira, e depois repete o mesmo passo cem vezes com pessoas diferentes. A maior parte das escolas atuais já ensinam giras na primeira aula. Isso é um erro. Sem domínio do passo básico, a gira vira uma confusão de pés e quedas. O passo básico do forró de salão é o passo lateral do baião. Conta em dois tempos: avança com o pé esquerdo no tempo um, fecha com o direito no tempo dois, recua com o esquerdo no tempo um, fecha com o direito no tempo dois. O segredo não é a mecânica dos pés, é a transferência de peso. Cada passo tem que levar o peso do corpo inteiro para o pé que está no chão. Se você fica com o peso nos dois pés ao mesmo tempo, parece que está marchando parado e a parceira não sente nenhuma condução. Eu levava cerca de duas semanas até conseguir fazer o passo básico sem pensar nos pés. Isso é normal. O cérebro precisa de tempo para criar o padrão motor.
Depois do passo básico dominado, o próximo passo é a gira básica, que é a mesma mecânica do passo lateral mas com uma rotação de 360 graus. A chave aqui é o leading arm. O braço que fica dado à parceira é o braço condutor. Você gira o tronco e o braço guia puxa ela suavemente. O erro mais comum na gira é virar a cabeça antes do corpo. Quando você vira a cabeça primeiro, perde a noção espacial e tende a girar demais. A correção é manter os olhos fixos num ponto à frente até o momento em que o corpo já está em movimento. Isso se chama spot turn e funciona no forró exatamente como funciona no ballet, só que com muito mais graça e menos rigidez. O passo seguinte que todo mundo quer aprender é o passo animal. Tecnicamente, o passo animal é um passo de avanço e recuo com o corpo inclinado para frente, imitando o movimento de um animal rastejante. Na prática, é um passo que exige flexibilidade de quadril e força nos abdominais. A maioria das pessoas que tenta o passo animal sem condição física acaba fazendo uma flexão lombar perigosa. Se você não tem condicionamento abdominal, pode adiar esse passo por pelo menos três meses de prática regular. Não tem problema nenhum. O forró de salão tem milhares de passos e o passo animal não é essencial para curtir a dança.
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Um problema real que eu encontrei nos primeiros dois anos de dança foi com o chamado "passo da ex". Esse é um nome de gíria que os dançarinos usam para descrever um movimento de giro duplo seguido de uma saída abrupta da abraçada. Muita gente aprende esse passo porque acha que é legal e sofisticado. Na verdade, o passo da ex é uma armadilha. Ele quebra a conexão com a parceira no pior momento possível e exige que ambos os dançarinos estejam perfeitamente sincronizados. Se alguém erra o timing, a consequência é uma queda feia ou pelo menos uma constrangimento público. Eu vi um colega meu levar um tombo dessas num wedding de 2015 e nunca mais tentar aquele passo. Outro insight que poucos sabem é que o ritmo do forró de salão é mais lento do que o do forró pé-de-serra. No pé-de-serra, o sanfoneiro toca rápido e os pés precisam acompanhar a velocidade. No salão, o ritmo é geralmente mais contido, o que permite mais variações e construções coreográficas. Mas isso também significa que o dançarino de salão precisa ter mais controle corporal do que o dançarino de pé-de-serra. Você não pode depender da velocidade da música para esconder erros de execução. Se você erra um passo num baião acelerado, ninguém nota. Se você erra no mesmo passo num xote lento, todo mundo vê.
Para quem quer baixar material de estudo, existem alguns recursos gratuitos na internet. O canal do professor Fabio Oliveira no YouTube tem uma série chamada "Forró Básico em 30 Dias" que cobre passo básico, gira, passo animal e os principais variações regionais. Tem também o site forrode.com.br que disponibiliza partituras e áudios de músicas nos ritmos mais comuns do forró de salão. Esses recursos são bons para quem já tem uma noção básica e quer aprofundar. Para iniciantes absolutos, o ideal é encontrar uma escola presencial e fazer pelo menos dez aulas antes de depender só de vídeos. O que menos falam sobre forró de salão é a questão da roupa. A maioria das pessoas vai para a dança de salão vestida como vai para uma festa qualquer. Isso é um problema porque o tecido errado pode limitar movimentos importantes. Camisas sociais de algodão grosso impedem a rotação dos ombros. Calças Jeans muito apertadas travam o quadril. O ideal é usar tecidos leves e elásticos, como poliéster com elastano, e calças com corte reto que permitam a passagem livre das pernas. Sapatos também fazem diferença. Um sapato de baile com sola de couro desliza melhor no piso do que um tênis com sola de borracha, que trava e pode causar lesões nos joelhos.
Existe também um debate constante sobre se o forró de salão deve ser dançado com abraço fechado ou abraço aberto. O abraço fechado é mais tradicional e permite uma conexão corporal mais intensa. O abraço aberto é mais livre e permite mais variações de passos. Na prática, a maioria dos salões híbridos usa os dois estilos conforme a música. Baiões mais rápidos tendem a ser dançados com abraço aberto. Xotes mais lentos favorecem o abraço fechado. O importante é saber adaptar-se ao estilo do parceiro e ao ritmo da música. Se você está pensando em começar agora, comece com o passo básico. Domine a transferência de peso. Faça isso até virar automático. Só depois partir para as giras. E esqueça o passo da ex. Há pasos mais seguros e igualmente bonitos. O forró de salão é uma dança de parceria, não de exibição individual. Quem dança bem é quem faz a parceira se sentir confortável e segura, não quem mostra o passo mais difícil.