Charles e Mary Lamb: os contos de shakespeare que todo mundo usa e ninguém lê o original
O livro dos primos Lamb é uma adaptação em prosa das peças de Shakespeare feita originalmente para crianças. Publicaram pela primeira vez em 1807, quando as obras do bardo ainda eram consideradas muito obscenas ou difíceis para o público jovem. A ideia era simples: pegar hamlet, macbeth, sonho de uma noite de verão e transformar em narrativas lineares que qualquer criança conseguisse acompanhar sem se perder nas falas em verso. Eu comecei a usá-los como material de apoio há alguns anos atrás, quando percebi que alunos que eu tinha acesso imediato ao texto original simplesmente travavam. As pessoas ficam paralisadas diante do italiano shakespeariano e desistem antes de entender a estrutura da trama. Os contos de shakespeare resolvem isso na prática, desde que você não os trate como substitutos.
contos de shakespeare
O que você precisa saber primeiro: a versão dos Lamb tem um problema que muita gente ignora. Eles cortaram praticamente toda a riqueza poética. Os diálogos viram narrativas descritas. As cenas que funcionam apenas pelo ritmo das falas perdem completamente o efeito cênico. Isso significa que ler só os contos é como assistir a um filme com a trilha sonora desligada. Você entende a história, mas perde metade da experiência. Achei um problema específico quando precisei explicar a diferença entre solilóquio eAside para alunos mais velhos. Tentei usar os contos como base, mas percebi que eles não distinguem essas formas teatrais. O texto dos Lamb converte tudo em narração em terceira pessoa. Você não consegue identificar onde Hamlet fala consigo mesmo versus onde ele finge estar conversando com outro personagem. Resolvi isso combinando os contos com uma leitura dirigida das cenas específicas no original. Escolhi três ou quatro cenas-chave por obra, li junto com o aluno, e só depois voltei para o conto como resumo geral.
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Quase todo mundo que indica esse material não fala sobre uma limitação importante. Os contos não preservam a comédia física nem os momentos de sátira política. Peças como A Megera Domada ou Como Gostais têm camadas de humor que dependem da encenação e do jogo de palavras. Nos contos, você vai ter a trama, mas o riso some completamente. Se o objetivo for análise literária ou teatral, considere complementar com adaptações cinematográficas modernas ou edições anotadas do texto original. Para quem quer baixar ou acessar, existem versões gratuitas em domínio público. O projeto Gutenberg e a Wikipedia em português hospedam versões completas. A tradução brasileira mais comum é a da Editora Martins Fontes, mas há também edições da Martin Claret e da Penguin-Companhia. Se preferir o original em inglês, Procure por "Tales from Shakespeare" no Project Gutenberg, que tem a versão de 1807 disponível de graça em formato PDF e ePub.
O custo benefício real é tempo. Usando os contos como porta de entrada, eu reduzo de cerca de oito horas para duas ou três horas o tempo que o aluno leva até conseguir acompanhar uma peça completa. Não é rápido, mas é muito melhor do que tentar ler Hamlet inteiro em inglês ou português antigo sem contexto. A ordem que funciona melhor é começar pelo conto, depois assistir a uma versão em vídeo de pelo menos uma cena, e só então ler o trecho correspondente no texto original. Esse processo costuma levar uns quarenta minutos por cena para quem nunca leu Shakespeare. Vale a pena usar como ferramenta pedagógica? Sim, desde que você tenha clareza do que está se perdendo. Os contos de shakespeare são um pontinho de partida útil, não o destino final. Se alguém promete que ler só eles vai dar domínio completo do autor, essa pessoa está vendendo algo que não funciona na prática.