Como fazer concordância verbal e nominal sem errar
O erro mais comum que eu vejo em revisões de texto não é gramatical em si, mas sim de interpretação. A pessoa lê o período, identifica o sujeito e conjuga o verbo achando que está tudo certo, só que o sujeito foi mal localizado. Isso acontece muito com frases iniciadas por pronome relativo. Eu corrigi um contrato jurídico semana passada onde o verbo estava no singular porque o redator acompanhou o pronome "que", mas o antecedente real estava depois de uma expressão intercalada. O ajuste foi simples: voltei ao núcleo do sujeito, que era plural, e mudei a concordância. Esse tipo de problema exige leituraAtenta, não apenas conhecimento da regra. A concordância verbal segue basicamente três situações. Quando o sujeito é simples, o verbo concorda em número e pessoa com ele. Quando é composto e vem antes do verbo, a concordância vai para o plural. Quando o sujeito composto vem depois do verbo, há duas possibilidades: verbo no plural ou concorda com o núcleo mais próximo. A concordância nominal, por sua vez, trata do acordo entre substantivo e seus determinantes — artigos, adjetivos, pronomes, numerais.
concordancia verbal e nominal exemplos práticos
Vou direto aos exemplos que realmente importam, porque a lista genérica da gramática escolar raramente prepara para o que aparece em documentos reais. Concordância verbal com sujeito composto: "O diretor e o coordenador assinaram o documento." Aqui não tem pegadinha. Agora o sujeito composto posposto: "Faltaram o diretor e o coordenador" ou "Faltou o diretor e o coordenador". Ambas são aceitas. A primeira é mais formal. A segunda é comum em textos institucionais e soa mais natural para muitos falantes. Um caso que muita gente erra envolve a expressão "um dos que". Eu já vi em relatório corporativo: "Ele é um dos colaboradores que trabalhou muito." O certo, na norma culta padrão, é "que trabalharam", porque "que" retoma "colaboradores", que está no plural. A lógica é: ele é um entre vários que trabalharam. Se a intenção for singular, a frase deveria ser reestruturada completamente, não apenas adjustada no verbo.
Na concordância nominal, o adjetivo pode variar de posição. Quando vem antes do substantivo, ele se flexiona normalmente: "As novas políticas e os novos relatórios." Quando vem depois e se aplica a dois substantivos de gêneros diferentes, a regra padrão pede o masculino plural: "Os alunos e as alunas desatentos." Mas se o adjetivo vier antes, como em "attentos alunos e alunas", aí já depende de análise estilística, porque a posição anterior tende a criar ambiguidade sobre quais termos ele modifica. Outro ponto que causa confusão constante é o uso de "bastante". Como adjetivo ou pronome, flexiona: "Temos bastantes recursos." Como advérbio, é invariável: "Os candidatos se dedicaram bastante." Em relatórios que li recentemente, vi ambas as formas erradas no mesmo parágrafo. A confusão vem do fato de que "bastante" funciona como homônimo funcional — a forma é idêntica, mas a função sintática muda tudo.
Em concordância nominal com partícula apassivadora "se", o verbo concorda com o sujeito paciente. "Alugam-se casas." Plural porque "casas" é o sujeito. "Aluga-se casa." Singular. Esse é um dos casos em que a análise sintática é indispensável. Tentar decorar sem entender a função gera erro sistemático. A concordância com "haja vista" merece atenção também. A forma correta é invariável: "Haja vista a situação." Nunca "hajas vistas". É uma locução prepositiva fossilizada, e a variação que alguns autores tentam introduzir não tem amparo na norma. Eu já vi editores rejeitarem textos porque o autor colocou "hajas vistas", e o argumento era justamente esse. A correção é manter a forma fixa.
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Para concordância nominal com expressões percentuais, a lógica é direta mas facilmente violada. "O índice de inadimplência atingiu trinta por cento." O numeral "trinta" é invariável, e "por cento" também. O que varia é o substantivo que acompanha: "Vinte por cento dos funcionários." Já vi "vinte por cento dos funcionários foi comunicado" em comunicado interno. O verbo deveria ir para o plural: "foram comunicados", porque o sujeito é "vinte por cento dos funcionários", que é plural.
Dicas que realmente funcionam na prática
A primeira coisa que eu faço ao revisar concordância é identificar o núcleo do sujeito. Se houver várias intervenções entre o sujeito e o verbo — como orações adjetivas, expressões explicativas, complementos — eu isolo o núcleo mentalmente e verifico se a flexão batida com ele. Isso elimina cerca de 60% dos erros que encontro em textos corporativos. Na concordância nominal, o problema frequente é o adjetivo ligado a substantivos de gêneros diferentes quando aparece no plural. "As meninas e o menino brincantes" está errado. O correto é "brincados" ou reestruturar para evitar a ambiguidade. A solução mais segura é repetir o adjetivo: "as meninas brincadeiras e o menino também." Pode parecer redundante, mas evita erro de interpretação.
Um cenário que eu encontrei recentemente e que vale a pena mencionar: concordância com sujeito oracional. "O fato de eles terem chegado atrasados causou preocupação." Aqui o verbo "terem" está no plural porque o sujeito da subordinada é "eles". O verbo principal "causou" concorda com "o fato", que é singular. Esse tipo de estrutura gera erro porque o revisor tende a aproximar o verbo principal do verbo da subordinada e fazer a concordância cruzada errada. A regra é simples: cada oração tem seu próprio sujeito e seu próprio verbo. Trate cada uma separadamente. Outro ponto importante é o uso do verbo "gostar". Ele exige a preposição "de": "Gosto de música." Isso afeta diretamente a concordância nominal quando aparece com Complemento do Verbo, porque a regência determina a estrutura da frase inteira. Erros de regência frequentemente disfarçam erros de concordância, já que a frase fica comprometida desde a base.
Quanto às limitações dessas regras, a verdade é que elas não cobrem todos os casos. Textos literários, especialmente contemporâneos, frequentemente rompem a concordância padrão como recurso estilístico. O recomendável é dominar a norma antes de decidir desviá-la, porque o desvio sem intenção clara soa como erro, não como estilo. Em documentos formais, legais ou técnicos, a variação não justificada é sempre sinal de descuido. O maior gargalo no aprendizado da concordância verbal e nominal é a falta de prática deliberada. Ler textos bem escritos ajuda, mas não substitui o exercício ativo de análise sintática. Revisar seus próprios textos com atenção específica à concordância, e não apenas à ortografia, reduz significativamente os erros em produções subsequentes. Eu recomendo deixar o texto descansar por algumas horas antes da revisão final, porque o cérebro tende a autocorrigir o que já leu e passa facilmente por cima dos desvios.
Se você estiver trabalhando com textos longos e precisaria de um recurso adicional, existem ferramentas de verificação gramatical que flagram problemas de concordância, mas nenhuma substitui o olhar humano para nuances contextuais. O ideal é usar a ferramenta como primeira triagem e fazer a revisão final manualmente, focando nos casos que elas não conseguem classificar com certeza.