Complemento Nominal E Objeto Indireto - Complemento Nominal X Objeto Indireto | PDF
Complemento Nominal X Objeto Indireto | PDF

Como distinguir complemento nominal de objeto indireto na prática

A maioria dos manuais ensina isso na ordem certa: definem, dão exemplos, colocam exercícios. O problema é que na hora da prova ou da revisão de texto, a coisa não funciona assim tão limpa. Eu já passei mais horas do que gostaria reescrevendo análises sintáticas depois que corrigi errado na primeira tentativa. A confusão entre complemento nominal e objeto indireto acontece especialmente quando você tem uma preposição no meio e um termo que parece completar o sentido de algo.

Onde a linha fica mais tênue: complemento nominal e objeto indireto

Vamos começar pelo que costuma dar errado. Ambos usam preposição. Ambos são termos integrantes da oração. Mas um completa um nome e o outro completa um verbo. Parece óbvio, mas é exatamente aí que as coisas escorregam. O complemento nominal liga-se a substantivos abstratos, adjetivos ou advérbios que tenham sentido de ação. Aí mora a primeira armadilha. Substantivos abstratos. Não qualquer substantivo. É por isso que "o amor à pátria" tem complemento nominal (a palavra "amor" é substantivo abstrato com sentido de ação de amar), mas "o livro do professor" não tem nada a ver com isso, porque "livro" aqui não carrega um processo ativo.

Já o objeto indireto se liga exclusivamente a verbos transitivos indiretos. O verbo é quem manda na preposição, não o nome. "O aluno obedeceu ao professor." O verbo "obedecer" exige a preposição "a". Pronto. Terminou. Não tem como confundir, desde que você identifique o núcleo correto primeiro. O meu caso mais irritante recente envolveu a frase "A sensibilidade à dor dos pacientes foi considerada." Num primeiro olhar, eu marcava "à dor" como objeto indireto, porque "sensibilidade" parecia ter relação com um verbo implícito. Errei. "Sensibilidade" é substantivo abstrato, então "à dor" é complemento nominal. O truque que eu usei foi substituir "sensibilidade" por um derivado verbal direto: "senser-se à dor". Se o derivado verbal funciona, então o termo é complemento nominal. Funcionou. Confirmação segura.

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Temos outro ponto que quase todo mundo esquece: o complemento nominal pode vir acompanhado de pronome oblíquo átono que retoma o mesmo termo. "Dei-lhe respeito." Aqui, "lhe" é objeto indireto e "respeito" é complemento nominal do verbo? Não. "Respeito" é objeto direto. A confusão aparece quando você tem construções como "Tenho necessidade disto." O "disto" é complemento nominal de "necessidade". Mas se você transformar em "Preciso disto," o "disto" vira objeto indireto do verbo "precisar." Mesma preposição, mesmo termo, função completamente diferente. A diferença está em qual palavra você está analisando. Um detalhe que poucos explicam direito: quando o substantivo abstrato foi derivado de verbo, ele mantém a regência do verbo original. "A preferência pelos candidatos" — "preferir" é transitivo indireto, exige "por". Então "pelos candidatos" é complemento nominal. Já "Eu prefiro os candidatos" — aqui "os candidatos" é objeto direto de "preferir". O substantivo herdou a estrutura, o verbo usa a sua própria. É por isso que muitos materiais didáticos dão exemplos contraditórios; eles não distinguem claramente entre a regência nominal e a verbal.

Outra situação complicada são os adjetivos. "Ele é culpado do crime." "Culpado" é adjetivo, "do crime" é complemento nominal. Fácil. Mas "Ele se culpou do crime"? Aí o verbo "culpou-se" é transitivo indireto, e "do crime" vira objeto indireto. Mesmo termo, mesma preposição, análise diferente porque o núcleo mudou de adjetivo para verbo. Se você analisar pela preposição, vai errar sempre. O correto é sempre perguntar: qual é o núcleo desse termo? Se for nome ou adjetivo, olha se é abstrato com sentido de ação. Se for verbo, verifica a transitivity. Quanto aos advérbios, o complemento nominal é menos frequente, mas existe. "Ele agiu com lealdade à causa." "Lealdade" é substantivo abstrato, então é complemento nominal. Mas "Ele agiu mal à situação"? Aqui "mal" é advérbio e "à situação" seria... bem, essa construção é realmente questionável. Na prática, advérbios raramente puxam complemento nominal de forma aceita pela norma culta. Não insista nesse caso. Foque nos substantivos abstratos e nos adjetivos, que são onde a regra funciona de verdade.

Para resolver rápido na hora da análise, o procedimento que eu sigo é este: primeiro localizo o termo preposicionado. Depois identifico a palavra anterior a que ele se liga. Se for verbo, checo a regência do verbo e chamo de objeto indireto. Se for substantivo abstrato, adjetivo ou advérbio, chamo de complemento nominal. Se o substantivo não for abstrato ou não tiver sentido de ação, descarto complemento nominal na hora. E quando ainda dou voltas, uso o teste do derivado verbal: se o substantivo deriva de verbo e mantém a regência, é complemento nominal. Se o verbo na frase ativa tem regência diferente, é objeto indireto. O maior defeito desse método é que ele depende muito de você saber identificar corretamente a classe gramatical da palavra anterior. E aí entram os casos limítrofes, como substantivos concretos usados com sentido abstrato, ou adjetivos que também podem funcionar como substantivos. Nesses casos, não tem teste infalível. Às vezes a análise depende de interpretação. Eu recomendo nesses momentos consultar gramáticas de referência como a Cunha e Cintra ou a Bechara, que tratam desses casos fronteiriços com mais atenção do que materiais didáticos convencionais.

Resumo prático para não errar mais

O que eu vejo nas bancas e nas correções de texto é que o erro mais comum não é decorar a definição, mas aplicar o critério na hora errada. A regra básica é simples: objeto indireto complementa verbo transitivo indireto, complemento nominal complementa nome (substantivo abstrato, adjetivo ou advérbio). A dificuldade está em saber qual é o núcleo. Quando você erra o núcleo, erra a análise inteira. Então antes de marcar qualquer termo, identifique a palavra que ele se liga. O resto vem depois.