Como Surgiu As Favelas - As favelas têm memória: o lugar dos territórios periféricos como ...
As favelas têm memória: o lugar dos territórios periféricos como ...

As origens das favelas brasileiras: o que realmente aconteceu

Em 1897, durante a Guerra de Canudos, o governo imperial brasileiro precisava abrigar soldados vindos de diversas partes do país. Muitos deles vieram do nordeste seco e foram acomodados no Morro da Favella, uma elevação no Rio de Janeiro, então capital federal. A planta chamada faveneira, um tipo de cactácea, crescia espontaneamente na encosta, e os moradores passaram a dar o nome ao local. O conflito em Canudos havia terminado em maio daquele ano, e os veteranos receberam ordens para deixar a área, mas a maioria simplesmente não foi embora. A ideia comum de que favelas começaram como comunidades organizadas e solidárias é uma meia-verdade que costuma aparecer em livros didáticos e documentários. Na prática, o que existia desde o início era uma lógica de ocupação espontânea desencadeada por expulsões, relocalizações forçadas e ausência crônica de políticas habitacionais. Os soldados deixaram o morro, mas outros grupos marginais foram ocupando terrenos públicos e privados que o Estado não queria gerir. Era um processo contínuo de inclusão-exclusão urbana.

Como surgiu as favelas no Brasil: um rastreamento histórico

A periodização mais aceita entre historiadores e urbanistas divide o fenômeno em três fases distintas, embora elas se sobreponham nos fatos. A primeira fase vai do fim do século XIX até a década de 1930. Nesta etapa, os morros cariocas receberam população negra liberta, veteranos de guerra, funcionários públicos demitidos e trabalhadores rurais que migravam para a cidade sem nenhum suporte. O prefeito Pereira Passos liderou uma reforma urbana conhecida como "Bota-Abaixo" entre 1902 e 1906, que demolia quarteirões inteiros de cortiços no centro da cidade para abrir avenidas modernas. As pessoas despejadas foram realocadas para os morros próximos. Esse deslocamento forçado foi um dos gatilhos mais importantes para a consolidação dos assentamentos nas encostas. A segunda fase ocorre entre os anos 1930 e 1970. Neste período, o governo de Getúlio Vargas criou os primeiros programas habitacionais limitados, como os loteamentos municipais, mas eles eram insuficientes diante do ritmo acelerado de industrialização e migração interna. Migrantes de Minas Gerais, Bahia, Pernambuco e outros estados chegavam massivamente ao Rio de Janeiro, São Paulo e outras metrópoles. O mercado formal de terra urbana era inacessível para essa população. Eles passaram a comprar terrenos distantes, em áreas de preservação ou encostas, muitas vezes com escrituras irregulares. Nesse contexto nasceram os chamados "bairros clandestinos", termo técnico usado pelo Dernerj e por órgãos similares para designar loteamentos vendidos sem infraestrutura legal.

A terceira fase, dos anos 1970 em diante, é marcada pela expansão horizontal das periferias. O governo militar, contrariamente ao que se imagina, também construiu milhares de conjuntos habitacionais, mas geralmente em locais cada vez mais distantes do emprego e dos serviços. A favela deixa de ser apenas morro e passa a existir também em planície, em áreas de risco, em terrenos de fundos de vale. A diferença física desaparece. O que permanece é a ausência de titulação adequada, saneamento precário e investimento estatal intermitente. Um detalhe que quase todo mundo ignora é a questão fundiária. Muitas favelas estão em terras públicas federais, estaduais ou municipais. Isso significa que a regularização não é apenas uma questão urbanística, mas juridicamente complexa. Existem unidades de conservação, áreas de proteção ambiental e terrenos da União envolvidos. Quando um município tenta regularizar uma favela, esbarra em órgãos ambientais que podem bloquear a operação, e a Justiça Federal pode anular títulos já emitidos. Eu vi isso acontecer pessoalmente em um projeto de regularização no Rio, onde sete anos de trabalho foram paralisados porque uma área classificada como APP em 1965 não podia receber infraestrutura urbana. A solução prática foi reclassificar a porção menor via lei estadual específica, algo que exige negociação política direta e tempoConsideravelmente longo. Não existe atalho técnico para isso.

O conceito de "favela" em si é regional. No Rio de Janeiro e em parte do Sudeste, usa-se esse termo. Em São Paulo, predominam as expressões "ocupação", "conjunto habitacional informal" ou simplesmente "periferia". Na região Norte, termos como "balneário" aparecem com frequência. Não se trata apenas de diferença linguística. Cada região tem uma trajetória institucional distinta que moldou formas diferentes de ocupação, resposta estatal e identidade comunitária.

Mitos que persistem sobre a origem

O primeiro mito é a ideia de que favelas surgiram apenas por negligência estatal. A realidade é mais complicada. Em vários casos, o Estado foi ativo na criação das condições que geraram as favelas: expulsão de centros urbanos, falta de transporte acessível para periferias dignas, legislação urbana que permitia especulação imobiliária e, em diversas ocasiões, remoções diretas com entrega de chaves em lugares ainda mais distantes do que os originais. Isso aconteceu repetidamente entre 1960 e 1980. O segundo mito é que favelas são apenas casas de tijolo aparente em morros. Favelas existem também em planícies, em áreas alagáveis, em encostas com risco geológico baixo ou alto. A topografia não define o fenômeno. O que define é a irregularidade fundiária, a carência de infraestrutura e a autonomia na construção. Uma comunidade plana em São Paulo que ocupa terreno público sem concessão é tão favela quanto um morro no Rio, sob a perspectiva técnica e jurídica.

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O terceiro mito é que a violência começou com as favelas. A violência estrutural antecedeu a formação desses assentamentos. O que ocorreu foi a presença posterior do tráfico em muitos desses territórios, a partir dos anos 1980, impulsionada pela demanda urbana de drogas e pela ausencia de Estado em várias áreas. Isso transformou dinâmicas internas, mas não foi a causa da origem.

Dados que importam para entender a escala

Segundo o IBGE, cerca de 25% da população urbana brasileira vive em comunidades que se enquadram na categoria de favelas, aglomerados subnormis ou assentamentos irregulares. O número varia conforme a metodologia. No Rio de Janeiro, essa proporção chega a aproximadamente 50% dos moradores. Em São Paulo, é menor em percentual, mas em números absolutos o volume é muito grande. Essas cifras mostram que o tema não é marginal. É estrutural. Uma coisa que poucos técnicos reconhecem abertamente é que a regularização fundiária, quando feita de forma isolada, pode gerar efeito perverso. A titulação aumenta o valor do solo e atrai investidores que acabam pressionando por remoções ou por mudanças de uso que expulsam os moradores originais. Esse fenômeno, conhecido internacionalmente como gentrificação por regularização, foi observado em projetos no Rio e em Porto Alegre. A solução mais eficiente que eu vi funcionar combina regularização com proteção contra speculação, como a outorga onerosa do direito de construir, limitações de subdivisão e programas de aluguel social vinculados ao território. Nada disso é simples de implantar. Exige vontade política e monitoramento constante.

Outro ponto que merece destaque é a distinção entre favela e comunidade. No Rio, muitos moradores Preferem o termo comunidade porque carrega uma conotação de laço social, identidade e organização própria. Favela, para parte dessa população, é um termo imposto que carrega estigma. Isso não é detalhe superficial. Ele importa quando vocêvai lidar com projetos de intervenção, pesquisa qualitativa ou políticas públicas. Tratar todo mundo como "favelado" sem considerar essa nuance gera resistência, desconfiança e fracasso em campanhas de saúde, educação e infraestrutura.

O que a literatura técnica recomendavel leva em conta

Autores como Luis Roberto Cardoso de Oliveira, Jorge Ahrons, Marcelo Lopes Souza e Teresa Caldeira produziram obras fundamentais sobre o tema. A leitura de "Cidade de Mortos" de Caldeira, por exemplo, mostra como a segregação no São Paulo contemporâneo reproduz lógicas parecidas com as do Rio, ainda que com instituições diferentes. Já os trabalhos de Cardosode Oliveira sobre a formação das favelas cariocas trazem uma análise clássica sobre a relação entre trabalho, migração e espaço urbano. Um erro comum de quem estuda o assunto é tratar as favelas como se fossem homogêneas. Elas não são. Uma favela na Zona Norte do Rio tem dinâmicas diferentes de uma na Zona Sul, que por sua vez difere de uma em Niterói ou em Mesquita. O perfil socioeconômico, a idade do assentamento, a proximidade com o centro, a presença ou não de tráfico e o nível de organização comunitária variam enormemente. Qualquer política ou projeto que ignore essas diferenças tende a falhar.

Também vale mencionar que o Estatuto da Cidade, aprovado em 2001, trouxe instrumentos jurídicos importantes para a regularização, como a concessão de uso especial para fins de moradia e a usucapião especial urbana. Na prática, esses instrumentos existem há décadas, mas sua aplicação depende de regulamentação municipal e de vontade política local. Muitos municípios nunca regulamentaram. Outros regulamentaram de forma tão restritiva que se tornaram inoperantes. A diferença entre a lei e a execução costuma ser onde o problema real se encontra. Se você quer entender como surgiu as favelas de forma profunda, a resposta curta é que elas surgiram da combinação entre exclusão social, migração, especulação imobiliária, reformas urbanas excludentes e ausência prolongada de política habitacional efetiva. Não houve um único evento fundacional. Foi um processo estrutural que se repetiu em múltiplas cidades brasileiras ao longo de mais de cem anos, com particularidades regionais que merecem atenção específica.