Como Se Alimentam Os Fungos - Por Que os Fungos Deuteromicetos são Considerados Imperfeitos? | Mundo ...
Por Que os Fungos Deuteromicetos são Considerados Imperfeitos? | Mundo ...

Como os fungos funcionam na prática

A maioria das pessoas acha que fungos são plantas que não fazem fotossíntese. Isso está erradíssimo. Fungos são organismos com parede celular de quitina, reino separado, e um sistema alimentar que não tem absolutamente nada a ver com raízes ou folhas. Se você já tentou cultivar cogumelos em casa e perdeu toda uma bandeja porque regou demais, o problema provavelmente estava em não entender como eles absorvem nutrientes na prática.

Como se alimentam os fungos e por que o solo importa menos do que você pensa

Fungos se alimentam por absorção externa. Eles liberam enzimas digestivas no ambiente, quebram matéria orgânica ou tecidos vivosoutside do corpo, e então absorvem os nutrientes dissolvidos. Esse processo se chama digestão extracelular. É literalmente como pré-digerir sua comida antes de beber. Os Cogumelos que você vê acima do solo são apenas estruturas reprodutivas. O organismo real é o micélio, uma rede de filamentos chamados hifas que se espalha pelo substrato. Eu já perdi três lotes de shiitake num primeiro projeto caseiro porque colocava os blocos de sawdust directamente em contact com o betume do chão. Acontece que fungos basidiomicetos, que incluem a maioria dos cogumelos comestíveis, precisam de trocas gasosas ativas. O micélio consome oxigénio e liberta CO. Quando o substrato toca numa superfície impermeável, a camada inferior fica anaeróbica, as hifas param de metabolizar, e em vez de frutificar o bloco simplesmente apodrece de baixo para cima. Eu resolvavi isso com uma prateleira de arame galvanizado elevada 10 centímetros do chão e virando os blocos a cada quatro dias. A taxa de frutificação subiu de 20% para cerca de 75%.

O modo trófico varia muito entre espécies. Os saprófitas alimentam-se de matéria orgânica morta — madeira em decomposição, folhas mortas, serapilheira. Os parasitas invadem tecidos vivos e extraem nutrientes do hospedeiro, o que pode matar a planta ou animal em questão de semanas. Os mutualistas formam micorrizas com raízes vegetais, trocando fósforo e azoto por açúcares. Existem ainda os endófitos que vivem dentro de tecidos vegetais sem causar doença aparente, e os necrotróficos que matam células primeiro e depois se alimentam dos restos. Aqui vai uma coisa que quase ninguém conta: muitos fungos são oportunistas facultativos. Um fungo que normalmente é saprófita pode passar a parasita sob stress térmico ou nutricional. Eu já vi Lentinula edodes, o shiitake comum, colonizar talos de tomateira vivos num estufa porque o substrato de serradura estava demasiado seco e o fungo procurou humidade alternativa. O tomate morreu. O fungo sobreviveu e fez cogumelos. Isso é relevante porque quem cultivafungos em ambiente controlado precisa de monitorar não só a alimentação do fungo mas também a saúde dos organismos próximos.

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A absorção é seletiva. As hifas não absorvem tudo igualmente. Elas privilegiam azoto, fósforo, potássio e açúcares simples. Metais pesados como cádmio e chumbo também são absorvidos e concentrados no tecido fúngico, o que faz dos fungos bioindicadores úteis mas perigosos se colhidos em solo contaminado. Cogumelos colhidos junto a estradas movimentadas ou terrenos industriais podem ter concentração de cádmio dez vezes superior ao recomendado pela EFSA, que é cerca de 0,5 miligramas por quilograma de peso seco. Velocidade de crescimento varia conforme espécie e condições. Mycelium radial de Pleurotus ostreatus em substrato de palha pasteurizada avança cerca de 2 a 3 centímetros por dia a 22°C. A Panellus serotinus pode crescer 8 centímetros por dia nas mesmas condições, o que é excepcional. Temperatura, pH e humidade relativa ditam quase tudo. Acima de 28°C a maioria dos cogumelos comestíveis entra em stress térmico, para de frutificar e fica suscetível a contaminações por Trichoderma, um fungo competidor que cresce de forma agressiva e pode destruir um lote inteiro em 48 horas.

Reproduzirse assexualmente via esporos ou assexualmente via fragmentação de hifa são os dois caminhos. Esporos de fungos são produzidos em quantidades absurdas — um único chapéu de Agaricus bisporus libera cerca de 2 bilhões de basidiósporos. A dispersão é maioritariamente por corrente de ar e humidade. Você não precisa comprar esporos para cultivar; basta collectar o líquido de um chapéu maduro, pressionálo sobre um substrato esterilizado e aguardar colonização. O problema é que esporos geram variabilidade genética, então o lote resultante raramente será uniforme. Para produção consistente usa-se inóculo de tecidomais frequentementecalled plug spawn ou sawdust spawn de cepa clonal. O maior erro de principiantes éesubsterilizar o substrato. Pasteurização a 65-75°C mata bactérias e competidores menores mas não esporos de fungos adversários como Trichoderma ou Chaetomium. Para culturas limpas de Pleurotus ou shiitake a pasteurização basta. Para espécies mais exigentes como Lion's Mane ou Reishi, a esterilização em autoclave a 121°C por 2 horas é praticamente obrigatória. Custa mais energia e equipamento mas reduz a taxa de contaminação de cerca de 40% para menos de 5%.

Existe ainda a questão da competição por espaço. Fungos não são isolados no substrato — bactérias, ácaros, nemátodos e outros fungos estão todos presentes. O micélio de muitos basidiomicetos produz compostos antimicrobianos naturais que inibem bactérias concorrentes. Isso é útil mas também significa que antibióticos de largo espetro usados noutros contextos agrícolas podem afetar negativamente a microbiota benéfica do substrato fúngico. Se você estiver a adicionar anything ao substrato além de matéria orgânica básica, teste primeiro em pequena escala. O tempo entre colonização completa e primeira frutinação varia de 7 dias a vários meses dependendo da espécie. Pleurotus djamor pode frutificar em 7 dias a 28°C com humidade relativa acima de 85%. Agaricus bisporus precisa de casing soil e passa por um período de pinning que pode levar 3 semanas após a finalização da colonização. Expectativas irreais são a principal causa de desistência em cultivo caseiro.

Se você quer começar, comece com Ostra (Pleurotus ostreatus). É a espécie mais tolerante a variações de temperatura e humidade, cresce em palha, café usado e cartão, e é praticamente impossível falhar se o substrato não estiver contaminado. Evite começar com Reishi ou Cordyceps — exigências de esterilização, humidade e luz tornam esses cultivos frustrantes para iniciantes e o retorno económico não justifica a curva de aprendizagem.