Como Morreu Van Gogh - Como morreu Van Gogh? - A história por trás da morte
Como morreu Van Gogh? - A história por trás da morte

Por que a história oficial sobre a morte de Van Gogh é meio questionável

Vincent van Gogh morreu em 29 de julho de 1890, aos 37 anos, em Auvers-sur-Oise, França. A versão que todo mundo aprende na escola é que ele se suicidou com um revólver no campo. A versão que os historiadores mais recentes começaram a discutir sériamente é que talvez tenha sido um assassinato ou um acidente.

Como morreu van gogh: os fatos documentados

O que se sabe com certeza: Vincent levou um tiro de arma de fogo no dia 27 de julho de 1890. Ele conseguiu voltar andando até a pensão onde morava, a Auberge Ravot, em Auvers. O dono da pensão, Rachael, encontrou-o desmaiado. Um médico chamado Gustave Duchamp de Rhumat chamou o irmão dele, Theo, que chegou correndo de trem de Paris. Vincent ficou dois dias sangrando antes de morrer, na madrugada do dia 29. A bala entrou pela barriga, passou por uma costela e parou na coluna. Ela não atingiu órgãos vitais diretamente. Tecnicamente, era um ferimento que poderia ter sobrevivido se tivesse recebido atenção médica imediata. Vincent demorou para contar o que aconteceu. Quando finalmente falou, disse que tinha atirado nele mesmo. Mas havia contradições desde o primeiro momento.

Ele disse que o revólver era de outra pessoa, um tal Monsieur Rémy, que era um armeiro local. Isso não fazia sentido prático. Se alguém empresta uma arma pra você e você decide usar ela pra se matar, a primeira coisa que a polícia vai perguntar é onde tá essa arma. A arma nunca foi encontrada. Rémy negou ter visto Vincent naquela semana. Outro ponto: Vincent disse que atirou de costas pra parede, num celeiro. A posição do corpo e os resíduos de pólvora na roupa não batem exatamente com essa descrição. Alguém que se atira de tão pertinho da roupa fica coberto de pó. A roupa dele tinha poucos resíduos, o que sugere que o tiro veio de uma distância maior. Algo entre 90 centímetros e 2 metros. Mais parecido com um tiro disparado de lado ou de frente, não de costas encostado na parede.

Tem também a questão de por que ele não pediu socorro logo de cara. Vincent ficou andando como se nada tivesse acontecido por várias horas depois do tiro. Caminhou varios quilômetros. Isso é incomum. Quem leva um tiro assim costuma entrar em choque rápido. Ele não entrou em choque imediato. Continuou funcional por um tempo considerável.

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A teoria do assassinato que ganhou força nos anos 2000

Em 2009, os escritores français Steven Naifeh e Smith Gregory publicaram um livro chamado "Van Gogh: The Life" onde argumentavam que Vincent não se suicidou. A tese deles: um jovem de 16 anos chamado René Secrétan atirou nele por acidente ou como ato de bullying. René era filho de um vizinho que Vincent ajudava artisticamente. Havia registros de que o garoto fumava,-bebia e brincava com uma arma. Os irmãos eram conhecidos por atormentar Vincent, chamando ele de "velho louco" e atirando pedras no muro da casa dele. O argumento principal: René confessou a morte do avô dele, Eugène Secrétan, que supostamente foi o verdadeiro atirador. O avô teria usado uma arma tipo Webley, calibre 9mm, que era comum na França na época. A bala encontrada no corpo de Vincent correspondia a esse tipo de arma. O avô mentiu dizendo que viu René com a arma pra proteger o neto. Vincent, por sua vez, aceitou a desculpa porque não queria arruinar a reputação da família. Depois dos dois morrerem, ninguém mais podia confirmar ou negar.

Isso explica várias coisas que a versão do suicídio deixa soltas: a ausência da arma, a postura do tiro, o fato de Vincent ter deixado bilhetes falando mal dele mesmo (o que é coerente com depressão mas também com culpa de quem aceita a narrativa de que foi algo voluntário). O problema dessa teoria: não existe uma única evidência direta que prove que René ou Eugène estavam presentes em 27 de julho. Tudo é inferência baseada em documentos que já estavam ambíguos desde 1890. A polícia da época também investigou brevemente a possibilidade de homicídio e descartou. Eles acharam que era suicídio e encerraram o caso.

O que a ciência forense moderna diz

Reexames posteriores, incluindo estudos de patologistas, apontam que a trajetória da bala era incompatível com autoinfração na posição descrita por Vincent. Um tiro de autoinfração normalmente entra numa angulação mais vertical. O trajeto da bala em Van Gogh tinha um ângulo mais horizontal, vindo de baixo pra cima ou de lado. Também tem a questão dos relatos contraditórios. Theo disse numa carta que Vincent falou claramente sobre se suicidar. Mas em outras cartas, Theo descrevia Vincent como alguém que não parecia deprimido naquele período específico. Havia momentos de alegria real, risadas, trabalho intenso. A narrativa de que Vincent estava inevitavelmente caminhando pro fim não se sustenta quando você lê as cartas dia a dia dele nos meses anteriores.

Na prática, a gente tem um cadáver, uma bala, uma arma que desapareceu, testemunhas que mudaram de versão e um monte de especulação. Ninguém vai resolver isso agora. Vincent não tá aqui pra responder, e os únicos testemunhos diretos são de pessoas que já morreram há mais de cem anos. O que sobrou foi uma versão confortável: o artista torturado que não aguentou mais a vida. Essa narrativa vende livros, alimenta museus e serve pra biografia simplificada. A realidade provavelmente é mais cinzenta, mais mundana, e talvez mais triste ainda. Alguém morreu naqueles campos em Auvers, e a gente nunca vai saber exatamente quem disparou ou por quê.

Se quer ler a discussão completa, o livro dos Naifeh e Gregory é o ponto de partida. Mas saiba que isso continua sendo debatido. A versão oficial do suicídio nunca foi provada, só aceitada por falta de alternativa melhor documentada.