Quando você precisa citar uma fonte que foi citada por outra
Isso acontece com frequência em trabalhos acadêmicos e na produção de conteúdo técnico. O problema é que a maioria das pessoas não sabe exatamente como estruturar isso de forma correta, especialmente quando se trata de normas ABNT ou APA. Vou explicar como funciona na prática, com um caso concreto que eu mesmo encarei recentemente. Primeiro, é preciso entender que uma citação de citação (também chamada de citação indirecta) ocorre quando você referencia uma obra que não leu diretamente, mas que foi mencionada por outra autora ou fonte que você tem acesso. A fonte original não está nas suas mãos; você está dependendo da interpretação ou transcrição de um terceiro autor.
Como montar um citação de citação exemplo passo a passo
Vamos começar pelo formato. Na ABNT, a estrutura básica é: SOBRENOME do autor citado, Ano, p. XX, apud SOBRENOME do autor que você efetivamente leu, Ano. O "apud" é a chave aqui — ele significa "citado por" em latim, e é o que diferencia uma citação directa de uma indirecta. Por exemplo, digamos que você está lendo um livro de Silva (2019) e encontra uma passagem que cita Foucault (1975). Você quer usar essa ideia de Foucault no seu trabalho, mas não tem o original. A referência ficaria assim:
"O poder não se posee, ele exerce-se" (FOUCALUT, 1975, p. 68, apud SILVA, 2019, p. 45). No list de referências, você só inclui a obra que você realmente leu — no caso, Silva (2019). Foucault (1975) não entra na bibliografia porque você não teve contato directo com o material original.
Na norma APA, a lógica é similar, mas a formatação muda. Você escreve (Foucault, 1975, como citado em Silva, 2019) na primeira menção, e depois (Foucault, 1975) nas seguintes, enquanto na referência só consta Silva (2019). Aqui vai algo que poucos explicam: o momento em que você descobre o livro original de Foucault depois de já ter usado a citação indirecta. Nesse caso, você deve substituir o "apud" pela citação directa, referenciar o original na bibliografia, e atualizar todas as menções no texto. Isso é importante porque uma citação indirecta weakena automaticamente o argumento — o leitor pode questionar se o autor que você leu distorceu ou tirou de contexto a ideia original.
Eu tive esse problema em 2023, durante a revisão de um artigo sobre metodologia qualitativa. Eu havia citado Bourdieu através de um artigo de Oliveira (2020) usando a estrutura apud. Três semanas depois, encontrei a obra original de Bourdieu na biblioteca da universidade. Ao comparar, percebi que Oliveira havia simplificado demais um conceito que, no original, tinha nuances importantes. Substituí todas as três menções, adicionei Bourdieu (1980) na referência, e no agradecimentos do artigo mencionei essa correção. Se você está escrevendo uma dissertação ou tese, esse tipo de ajuste ainda pode ser pedido em banca — e é melhor estar preparado para justificar quando usou uma cadeia de citação.
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Pegadinhas comuns que quebram citações
O erro mais frequente é confundir "apud" com "após". Alguém às vezes vê um "apud" num texto e acha que significa "que veio depois", mas o sentido correto é estritamente "citado por". Trocar isso invalida toda a estrutura. Outro ponto é a página. Quando você faz uma citação de citação, o número de página que aparece refere-se à página onde o segundo autor citou o primeiro, não à página da obra original. Se você tentar buscar a passagem no livro de Foucault pelos números que viu no livro de Silva, vai perder tempo. A página do original provavelmente é diferente, e sem acesso directo a ele, você não consegue verificar.
Existe ainda a questão das edições. Se o autor que você leu citou uma tradução de 1998 de um livro que originalmente foi publicado em 1975, a referência completa da obra traduzida deve contemplar tanto o ano original quanto o da tradução, dependendo da norma que você está seguindo. Na ABNT, o formato recomendado é: SOBRENOME, Nome. Título. Ano da edição original. Tradução de Nome Sobrenome. Cidade: Editora, Ano da tradução. Um limite real dessa prática é que revisores e bancas examinadoras podem rejeitar argumentos construídos puramente sobre citações indirectas, especialmente se o tema for central para a tese. Um citação de citação exemplo é útil para referências secundárias, dados de apoio ou contexto histórico, mas não deve ser a base de uma afirmação crítica. Se o seu argumento depende de uma ideia que você nunca leu no original, o mais seguro é localizar a fonte primária antes de apresentar qualquer conclusão.
Quando não há alternativa — e muitas vezes não há, seja por obra esgotada, acesso restrito a bases pagas, ou material disponível apenas em arquivos físicos em outra cidade —, o uso do apud é aceitável desde que explicitado corretamente. A transparência é o que diferencia uma citação bem-feita de uma que parece preguiçosa. Anotar qual obra você consultou e qual obra foi apenas citada por ela resolve a maior parte das objeções.
Alternativas práticas quando o apud se torna inviável
Se você perceber que está acumulando citações indirectas demais, considere pedir um empréstimo interbibliotecário da obra original. Muitas universidades brasileiras têm convênio com o Sistema de Bibliotecas da CAPES, e o prazo médio de entrega é de dez a quinze dias úteis. Outra opção é usar bases como SciELO, periódicos CAPES ou Google Académico para localizar versões digitais acessíveis. Também vale a pena verificar se o autor que você está citando disponibiliza um artigo de revisão sobre o tema. Artigos de revisão frequentemente agrupam citações indirectas de múltiplas fontes de forma organizada, o que permite cruzar informações sem depender de uma única cadeia de reprodução.
O que define uma boa citação de citação não é acomplexidade da estrutura, mas a honestidade intelectual de indicar claramente o que você leu e o que apenas tomou como referência através de outro. Quando isso fica explícito, o formato em si deixa de ser um obstáculo.