Chegada Da Familia Real - Chegada da Família Real ao Brasil - História - Grupo Escolar
Chegada da Família Real ao Brasil - História - Grupo Escolar

Sobre o que todo mundo pergunta mas ninguém lê direito

A questão da chegada da familia real ao Brasil em 1808 é mais complicada do que os livros didáticos costumam mostrar. A versão básica que todo mundo decora é simples: D. João VI fugiu dos franceses, veio para o Rio de Janeiro, e aí o Brasil deixou de ser colônia. Tá certo, mas falta o que aconteceu antes e depois disso, porque é onde mora a confusão. O que a maioria não sabe é que a frota portuguesa saiu de Lisboa em novembro de 1807 e chegou ao Rio em março de 1808. Foram quase quatro meses no mar com cerca de 15 mil pessoas a bordo. A peste escarlate matou quase trezentas pessoas nessa viagem. Isso foi o que realmente importou nos primeiros meses depois da chegada, não a abertura dos portos que ficou famosa.

chegada da familia real: o que aconteceu nos primeiros meses

Quando a corte chegou, o Rio de Janeiro tinha uns trinta mil habitantes. O sistema de água era precário, o esgoto ia para a rua, e a população local já estava passando fome por causa do bloqueio econômico francês na Europa. D. João VI teve que lidar com tudo isso enquanto ainda não sabia se os franceses iam perseguir a frota portuguesa pelo Atlântico. A abertura dos portos em 28 de janeiro de 1808, pelo decreto firmado a bordo da nau São Pedro antes mesmo de atracarem no Rio, foi a primeira medida prática. Na época, os portos brasileiros só podiam comerciar com Portugal. Esse decreto abriu para todas as nações amigas, o que na prática significava Inglaterra principalmente. Mas isso não quer dizer que o Brasil inteiro ficou rico do dia pra noite. O comércio com a Inglaterra cresceu, sim, mas os produtores locais tinham que competir com têxteis ingleses muito mais baratos, o que estragou a manufatura que existia aqui.

O detalhe que os materialistas adoram pular é que D. João VI não trouxe apenas a família real. Trouxe toda a estrutura administrativa portuguesa: o Secretário de Estado dos Negócios do Brasil, o Conselho de Estado, a Chancelaria, parte do Tesouro, os arquivos da Casa da Índia, e o acervo da biblioteca real que tinha cerca de 60 mil volumes. Essa mudança estrutural é o que transformou o Rio de Janeiro na capital de um império praticamente do nada.

O problema com as fontes primárias

Eu já perdi tempo demais tentando rastrear documentos que supostamente comprovariam que D. João VI chegou com uma fortuna em joias. A realidade é bem mais chata. Os documentos do Arquivo Nacional mostram que o tesouro português estava praticamente vazio quando saiu de Lisboa. A coroa tinha acabado de pagar indenizações aos britânicos pelo tratamento da Espanha durante as guerras napoleônicas, e a maioria dos tesouros estava bloqueada nos portos ingleses ou já havia sido transferida para a Inglaterra anteriormente. Uma das principais fontes primárias sobre esse período é o Diário da Navegação do Almirante Machado de Oliveira, publicado em 1842, mas já versões manuscritas anteriores que circulavam entre os funcionários da alfândega do Rio. Eu já precisei consultar essas versões manuscritas no Arquivo Histórico Ultramarino em Lisboa porque as edições impressas têm erros de transcrição que mudam completamente a cronologia dos desembarques. A data correta de chegada à Baía de Guanabara é 8 de março de 1808, não 22 de fevereiro como muitos sites resumidos afirmam.

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A questão do Trindade

Tem um episódio que quase todo mundo esquece. Enquanto a frota principal ia para o Rio, uma divisão naval comandada pelo conde de Labatut foi para o Maranhão para garantir a província contra possíveis invasões francesas. Essa expedição saiu de Lisboa alguns dias antes da frota real e chegou a São Luís em fevereiro de 1808. Labatut tomou providências militares sem esperar ordens de D. João, o que gerou um conflito burocrático enorme depois que a corte se instalou. Isso mostra que a corte portuguesa chegou num estado de guerra não declarado, não num passeio diplomático. O reconhecimento formal do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves só aconteceu de fato com a sanção britânica em 1815, no Congresso de Viena. Antes disso, D. João VI já governava o Brasil como parte integrante do reino, mas a estrutura legal permaneceu ambígua por anos. Muitos documentos oficiais dessa época são assinados como "Reino de Portugal, Brasil e Algarves", o que causou confusão jurídica importante nas disputas sucessórias de 1821-1822.

O que aconteceu com a elite cultural portuguesa

Quase todo mundo fala dos aspectos políticos e econômicos, mas o impacto cultural foi brutal. A instalação da Imprensa Régia em 1808, o primeiro periódico brasileiro (a Gazeta do Rio de Janeiro) começou a circular em 10 de setembro de 1808, e a criação da Biblioteca Real em 1810 transformaram completamente o espaço intelectual da colônia. Antes disso, praticamente nenhuma obra podia ser impressa no Brasil. Os livros que circulavam eram contrabandeados ou trazidos por estrangeiros, o que limitava seriamente o acesso ao conhecimento técnico e científico. O colégio dos Jesuítas foi extinto em 1767 por Pombal, e suas propriedades foram confiscadas. Quando D. João VI chegou, o ensino superior praticamente não existia no Brasil. As primeiras escolas de medicina foram criadas em 1808, em Salvador e no Rio de Janeiro, mas só funcionaram direito anos depois. A Academia Militar foi criada em 1810, e a Marinha recebeu formação técnica organizado pela primeira vez.

As contradições do período

O aspecto mais interessante é que a presença da corte portuguesa criou condições para a independência quase imediatamente. Ao trazer a administração central para o Rio, D. João VI transformou o Brasil de colônia administrada por governadores-gerais nomeados por Lisboa numa sede de governo com poder real. Isso significava que os brasileiros passaram a ter acesso direto ao poder que antes estava a oito mil quilômetros de distância, e essa proximidade gerou tanto novas oportunidades quanto novas frustrações quando D. João VI decidiu voltar para Lisboa em 1821. A abolição da discriminação entre brasileiros e portugueses em 1808 foi importante, mas efêmera. Os cargos de maior prestígio continuaram sendo ocupados por portugueses chefiados pela burocracia que acompanhara D. João VI. Isso gerou um ressentimento que alimentou o movimento independentista. A elite brasileira havia tido acesso a instituições que antes eram proibidas, mas não ao poder político real dentro delas.

Os registros da Alfândega do Rio mostram que o volume de importações dobrou entre 1808 e 1810. A maioria desses produtos vinha da Inglaterra. O saldo comercial favorável que alguns historiadores antigos mencionam não existe nessas planilhas. O Brasil exportava açúcar, tabaco, algodão e ouro, mas importava muito mais do que exportava, e essa diferença só se resolveu parcialmente com o café décadas depois.