O que é o cariótipo na síndrome de Down
O cariótipo é o arranjo visual dos cromossomos de uma célula, organizado por tamanho e estrutura. Quando falamos de síndrome de Down, o achado clássico é a presença de uma cópia extra do cromossomo 21 — ou seja, trissomia do 21. Em vez dos 46 cromossomos habituais, o indivíduo tem 47, com três cromossomos 21 em vez de dois.
Cariotipo sindrome de down: como se apresenta
O cariótipo mais comum é o da trissomia livre, representado como 47,XX,+21 (feminino) ou 47,XY,+21 (masculino). Nessa forma, a trissomia ocorre por não disjunção meiótica, geralmente na divisão da mãe. A risco de ocorrência aumenta com a idade gestacional da mãe — esse é um fator bem estabelecido na literatura. Existem outras variantes. A translocação Robertsoniana ocorre quando parte do braço longo do cromossomo 21 se liga a outro cromossomo, frequentemente o 14. O cariótipo seria algo como 46,XX,der(14;21)(q10;q10),+21. O indivíduo tem 46 cromossomos, mas carrega material genético extra do 21. Essa forma pode ser hereditária, o que muda completamente o contexto de aconselhamento genético para a família.
A mosaicagem é a terceira variante. Nesse caso, parte das células tem cariótipo normal (46) e parte tem trissomia 21 (47). A proporção varia muito entre indivíduos. Isso acontece por um erro na divisão celular pós-zigótica, durante os primeiros estágios do desenvolvimento embrionário.
Como o exame é feito na prática
O cariótipo convencional exige cultivo de células — geralmente linfócitos de sangue periférico — com exposição a fitohemaglutinina para estimular a divisão. Depois de 48 a 72 horas, adiciona-se colcemida para bloquear o fuso mitótico, travando as células em metáfase. As células são expostas a solução hipotônica de KCl 0,075 M para inchá-las e espalhar os cromossomos. Fixação com metanol/ácido acético segue em seguida. O material é depositado em lâminas e corado com giemsa, produzindo o padrão de bandas G característico. Um citogeneticista analisa pelo menos 20 células em metáfase para confirmar o cariótipo. Para mosaicagem, recomenda-se analisar mais células — às vezes 50 ou mais — porque a detecção depende da proporção de linhagens afetadas.
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O diagnóstico pré-natal pode ser feito por amniocentese (após a 15ª semana) ou biopsia de vilo corial (entre 10 e 13 semanas). Ambos fornecem células fetais para cultivo. Testes de triagem como o NIPT (teste de DNA fetal no sangue materno) detectam trissomias com alta sensibilidade, mas são screening, não diagnóstico. Um cariótipo completo ainda é necessário para confirmar.
Limitações e nuances importantes
O cariótipo convencional tem resolução limitada — geralmente na faixa de 5 a 10 megabases. Microdeleções ou microduplicações menores podem passar despercebidas. Para essas situações, técnicas como array CGH ou sequencing de nova geração oferecem resolução muito maior. Um ponto que muitos não consideram: a trissomia 21 completa e a mosaicagem produzem espectros clínicos diferentes, mas com muita sobreposição. Não existe uma regra simples que diga "mais células trissômicas = mais sintomas graves". A variabilidade é enorme, mesmo dentro de uma mesma família.
Outro detalhe prático: o cultivo de células pode falhar em alguns casos, especialmente com amostras de sangue de recém-nascidos ou em condições de estresse. Quando isso acontece, recorre-se a FISH (hibridização in situ por fluorescência) como complemento rápido. O FISH usa sondas específicas para o cromossomo 21 e dá resultado em 24 a 48 horas, sem necessidade de cultivo. Também vale mencionar: em casos raros de translocação, um dos pais pode ser portador equilibrado. O cariótipo dos pais deve ser avaliado quando se identifica trissomia por translocação no filho, para estimar o risco de recorrência em gestações futuras. Esse é um passo que às vezes é negligenciado na pressa do diagnóstico.
O que o cariótipo não diz
O cariótipo confirma a presença ou ausência de material cromossômico extra, mas não prevê o curso clínico. Não sabe-se, a partir do cariótipo sozinho, qual será o nível de comprometimento cognitivo, quais problemas cardíacos podem estar presentes, ou qual a expectativa de qualidade de vida. Esses fatores dependem de múltiplas variáveis genéticas e ambientais. O acompanhamento multidisciplinar — cardiologia, neurologia, terapia ocupacional, fonoaudiologia — é o que realmente faz diferença no dia a dia. O cariótipo é um marco diagnóstico importante, mas é apenas o começo do processo.