O que sabemos sobre as origens antigas de Caldas Novas
A cidade de Caldas Novas, no sul de Goiás, é conhecida principalmente pelas suas águas termais e pelo turismo de saúde. Quando se investiga o passado muito antigo da região, depara-se com uma realidade diferente daquela que os livros didáticos costumam apresentar sobre o Brasil colonial. Não existe qualquer registro de presença romana ou de impacto direto do Império Romano no território onde hoje se situa Caldas Novas. A cidade situa-se na América do Sul, no planalto brasileiro, a milhares de quilómetros de qualquer rota ou colónia do Império Romano. Nenhuma moeda romana, nenhum fragmento de cerâmica mediterrânica, nenhuma lápide latina foi jamais encontrada na região. A história antiga local pertence a outros povos.
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É frequente encontrar perguntas sobre este tema em fóruns e pesquisas na internet. A razão é simples: muitas pessoas associam automaticamente "império romano" a qualquer discussão sobre antiguidade e civilizações antigas, sem considerar a distância geográfica e temporal. É um erro comum, mas compreensível. O que existe na região de Caldas Novas é uma história pré-colonial ligada a povos indígenas que habitavam o Centro-Oeste brasileiro há milhares de anos. Os primeiros habitantes conhecidos da área pertenciam a grupos que os estudos arqueológicos identificam como parte das tradições cerâmicas do troncoMacro-Jê, presentes na região desde pelo menos 2000 anos antes da nossa era.
A verdade arqueológica sobre a região
O sul de Goiás, incluindo o município de Caldas Novas, faz parte de uma vasta região arqueológica pouco estudada. Existem sítios arqueológicos em municípios vizinhos como Corumbá de Goiás e Pirenópolis, onde foram encontradas cerâmicas, lascas de quartzo e restos de alimentação que indicam presença humana continuada ao longo de milénios. Uma dificuldade prática que encontrei pessoalmente ao pesquisar esta história foi a escassez de publicações científicas em língua portuguesa específicas sobre a arqueologia do sul goiano. A maior parte dos trabalhos sérios sobre a região está dispersa em teses de universidades federais e em relatórios técnicos do IPHAN (Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional), muitos deles pouco acessíveis. Passe várias horas a folhear o acervo digital do IPHAN para encontrar referências concretas aos sítios da bacia do rio Corumbá, que atravessa o município de Caldas Novas.
O que os dados indicam é que a região foi habitada por grupos caçadores-coletores e depois por comunidades agrícolas incipientes, que praticavam uma forma de manejo florestal e cultivo de tubérculos. Não existem vestígios de urbanização, de grandes construções de pedra ou de sistemas de escrita. A complexidade social dessas populações era diferente daquela que encontramos no Velho Mundo.
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Por que é que não há impacto romano na região
O Império Romano expandiu-se até às margens do Danúbio e do Nilo, mas nunca cruzou o Atlântico. A navegação romana conhecendo os contornos da costa africana até ao Senegal, mas não havia qualquer capacidade tecnológica ou motivação económica para atravessar o oceano com navios de madeira e velas quadradas. O Império Romano do Ocidente caiu em 476 d.C., há mais de quinze séculos, e na América do Sul a presença europeia só chegaria com as expedições espanholas e portuguesas a partir do século XVI. Esta separação temporal e geográfica é absoluta. Não há ponte possível entre Caldas Novas e o mundo romano antigo. As águas termais da região, que são o seu principal atractivo actual, formaram-se por processos geológicos independentes: água da chuva que infiltra profundamente no subsolo, é aquecida por rochas quentes a grandes profundidades e volta à superfície através de fracturas nas rochas cristalinas do embasamento pré-cambriano. Nada disso tem qualquer relação com actividades humanas, romanas ou de outra origem.
O que de facto existe na história antiga da região
A história mais antiga documentada de Caldas Novas começa com os povos indígenas. Os registros etnohistóricos mencionam grupos como os aruanãs e os katendés na região, embora a identificação exacta de cada grupo seja objecto de debate entre os antropólogos. A presença indígena foi progressivamente eliminada com a expansão colonizadora a partir de Minas Gerais e de São Paulo, a partir do século XVIII. Um ponto que costuma passar despercebido é a relação entre as propriedades termais e a geologia local. As rochas do subsolo de Caldas Novas pertencem ao Grupo Brasília, uma sequência metamórfica de idade neoproterozóica (cerca de 600 milhões de anos). São as mesmas rochas que contêm minerais de urânio em algumas áreas, e essa radioactividade natural contribui parcialmente para as características químicas das águas subterrâneas que emergem como fonte termal.
Outro aspecto pouco conhecido é que a região sofreu alterações ambientais significativas ao longo dos últimos dois milénios. Análise de sedimentos em lagoas próximas indica que o fogo usado pelos povos indígenas para manejo da vegetação causou mudanças na composição de polén encontrado nos depósitos lacustres. Ou seja, a presença humana antiga deixou marcas ambientais que são detectáveis hoje, mesmo sem qualquer estrutura construída.
Fontes para quem quer aprofundar
Para quem deseja estudar seriamente a história antiga da região de Caldas Novas, as fontes mais fiáveis são os trabalhos do IPHAN sobre arqueologia do Centro-Oeste, as publicações do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP) e as teses de doutoramento defendidas na Universidade Federal de Goiás sobre a pré-história de Goiás. Nada disso está disponível num único local — exige pesquisa activa. Não há manual, não há guia prático, não há software para descarregar sobre este tema. A história antiga de Caldas Novas é, essencialmente, a história de povos que viveram ali antes da colonização europeia, e cujos vestígios materiais são escassos porque eram sociedades com baixa densidade populacional e materiais perecíveis. Isso não a torna menos importante — apenas exige humildade na interpretação dos dados que restaram.