Biografia De Mario Quintana - Biografia de Mario Quintana | PDF
Biografia de Mario Quintana | PDF

O poeta de Pelotas que ninguém lia mas todo mundo citava

Mario Quintana nasceu em 30 de julho de 1906 na cidade de Quintana, no interior do Rio Grande do Sul, embora sua família já morasse em Pelotas desde 1909. Seu nome completo era Mário da Silveira Quintana. Foi o terceiro filho de uma família de onze irmãos. O pai administrava uma pequena loja e a mãe cuidava da casa. Cresceu lendo bastante, especialmente poetas portugueses e românticos franceses, o que deixou marca clara nos primeiros textos que começou a produzir ainda adolescente. Estudou Direito em Porto Alegre mas não chegou a se formar. Trabalhou como professor de português e espanhol, repórter, revisor em uma tipografia e vendedor de enciclopédias. Essa última experiência foi curiosa porque ele precisava visitar casas por toda a capital gaúcha, falando com donas de casa que muitas vezes não podiam comprar. Ele disse depois que isso lhe ensinou mais sobre o povo do que qualquer aula universitária.

biografia de mario quintana: os anos de formação e a estreia literária

Sua primeira publicação importante foi o livro Rosto de Quintana, lançado em 1948, quando já tinha quarenta e dois anos. Antes disso, tinha publicado Claraboia em 1940, seguido de O Doguinho de Mademoiselle em 1944. A trajetória era lenta, sem pressa. Ele próprio dizia que escrevia devagar porque tinha muito o que dizer e pouco tempo para dizer. Os grandes livros vieram depois dos cinquenta anos. Lição de Coisas (1959), Psicologia dos Cachorros (1963), Obra Completa (1974), O Guardador de Rebanhos (1989) são títulos que marcaram gerações. A coletânea póstuma A Rua dos Catadores reuniu textos escritos ao longo de toda uma vida.

Há um detalhe que poucos destacam: a relação dele com a poesia infantil não era didática no sentido convencional. Ele não escrevia para ensinar. Escrevia porque a infância era, para ele, um estado de consciência privilegiado. Em Psicologia dos Cachorros, por exemplo, os animais falam sobre a condição humana com uma nitidez que adultos raramente alcançam. Isso invertia a lógica vigente na época, que via poesia infantil como conteúdo simplificado ou moralista. Recebeu o Prêmio João de Barro da Academia Brasileira de Letras em 1971. Foi um reconhecimento que chegou tarde, como quase tudo na vida dele. Não era um poeta de manifestos, de grupos literários ou de polêmicas públicas. Evitava os círculos culturais do Rio de Janeiro, que eram o centro das atenções na época. Prefere ficar em Pelotas, onde morava praticamente toda a vida.

Faleceu em 5 de maio de 1994 em Porto Alegre, aos oitenta e sete anos. Seus restos mortais estão no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, na capital gaúcha, trasladados lá em 1999.

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O estilo e o impacto prático da obra

O que torna a obra de Quintana interessante na prática é a economia de meios. Ele dizia que a poesia começa quando se consegue dizer muito com poucas palavras. Não era uma afirmação vazia. Nos cadernos publicados postumamente como A Ilusão da Moda e Diário de um Sixtinista, a densidade é enorme. Cada verso parece ter sido pensado dezenas de vezes antes de sair do papel. Uma característica que os leitores costumam perder de vista é o humor. Quintana era engraçado. Não era um poeta tragicamente solitário que sofria em silêncio. Tinha um sarcasmo afiado, uma capacidade de observar o absurdo do cotidiano com frieza quase cirúrgica. Versos como "Sou um cara tão mal-encarado que até meu reflexo pede licença" ilustram isso perfeitamente. Ele zombava de si mesmo com naturalidade.

A recepção da obra teve um momento decisivo em 1989, quando Alberto Caeiro, livro de versos em que Quintana atribuía a autoria ao heterônimo de Fernando Pessoa, se tornou um fenômeno de vendas. O livro ficou mais de cem semanas na lista do mais vendido no Brasil. Muita gente descobriu Quintana por aí. Outros já o liam há décadas e simplesmente continuavam lendo. O efeito foi duplo: renovou o interesse pela obra completa e colocou seu nome no debate público. Entre os problemas que existem ao estudar Quintana está a tendência de romantizar demais o poeta. Há uma visão que o transforma num bicho-papão delicado, um velho bonzinho que fala com cachorros. Isso reduz a complexidade da obra. Ele era ácido quando queria. Tinham versos de uma amargura rara, especialmente nos cadernos pessoais onde escrevia sem preocupação com publicação. Ler só os livros publicados dá uma imagem incompleta.

A edição da obra completa também merece atenção. A Editora V & M reuniu os textos em volumes que facilitam o acesso, mas há edições antigas da Record e da Brasiliense que ainda circulam e que têm prefácios úteis de críticos como Haroldo de Campos e Antonio Candido. A versão de 2001 com quatro volumes é a mais acessível para quem quer começar. Os cadernos particulares foram reunidos em Diário de um Sixtinista (1990), Da Metade do Amor (1991), Lições de Coisas (1992) e A Rua dos Catadores (1996). Esses livros mostram o processo criativo em andamento. O rascunho, a correção, a tentativa falha. Serve como material de estudo se você quiser entender como a poesia funciona na prática, e não apenas como produto final.

O legado de Quintana permanece vivo no Brasil. Suas frases são usadas em conversas do dia a dia, em placas de ônibus, em tatuagens. A dificuldade é que essa popularidade às vezes transforma versos inteiros em mero enfeite de rede social, desprovido do contexto em que foram escritos. O conselho mais pragmático que posso dar é ler os poemas originais, sem resumos ou adaptações, preferencialmente nas edições mais fiéis disponíveis. Se você quer entender de verdade o que ele fazia, comece por Claraboia de 1940. É o primeiro livro e mostra claramente onde estava a cabeça dele desde o início. Depois vá para Rosto de Quintana e, em seguida, Liçao de Coisas. A sequência cronológica ajuda a perceber a evolução do estilo, que nunca foi radical mas foi constante. Ele refinava, não revolucionava.