Quem foi Cândido Portinari
Cândido Portinari nasceu em Brodowski, interior de São Paulo, em 29 de dezembro de 1903. A família era de imigrantes italianos e a situação financeira era apertada desde o início. O garoto já demonstrava interesse por desenho muito cedo, mas os recursos para estudo formal praticamente não existiam. O pai, também chamado Cândido Portinari, trabalhava como comerciante e, eventualmente, como feirante, o que obrigava a família a se mudar várias vezes dentro do estado. Foi em 1928 que a trajetória mudou de figura. Portinari ganhou uma bolsa de estudos para ir a Paris estudar na Escola de Belas Artes. Antes disso, ainda estudou no Liceu de Artes e Ofícios em São Paulo, onde teve como professor Victor Brecheret. A formação técnica nessa escola é o que explica o domínio que ele tinha de desenho e composição desde jovem.
biografia de cândido portinari
A biografia de Cândido Portinari se divide basicamente em três fases. A primeira, dos anos 1920 ao início dos anos 1930, é marcada pela preocupação com a figura humana e um realismo que já mostrava a direção que ele ia seguir. A segunda fase, dos anos 1930 aos anos 1940, é onde ele começa a desenvolver seu estilo mais reconhecível, com cores mais terrosas, formas alongadas e temas ligados ao homem brasileiro, especialmente ao trabalhador do campo e aos retirantes. A terceira fase, dos anos 1940 até sua morte em 1962, é caracterizada por obras de grande escala e um tom cada vez mais sombrio, quase expressionista. Uma coisa que muita gente não sabe é que Portinari teve um problema de saúde grave que acompanhou a vida inteira e acabou ceifando seus dias prematuramente. Ele foi exposto a produtos químicos tóxicos durante a criação de seus murais maiores, incluindo pigmentos com chumbo e arsênico. Isso aconteceu principalmente quando estava trabalhando nos painéis para o Pavilhão do Brasil na sede da ONU em Nova York, no início dos anos 1950. O envenenamento comprometeu seus rins e seu sistema nervoso de forma progressiva. Os sintomas eram dores intensas, tremores nas mãos e uma fadiga extrema. Eu já vi relatos de arquivos que documentam como ele tentava pintar mesmo nos piores momentos, com as mãos trêmulas, tentando segurar o pincel.
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O problema é que na época as condições de trabalho artístico eram completamente diferentes do padrão atual. Não havia EPIs adequados, não havia monitoramento de saúde ocupacional para artistas plásticos. Quando os sintomas começaram a ficar graves, ele voltou ao Brasil e recebeu tratamento, mas o dano já estava feito. Portinari morreu em 1962, aos 58 anos, devido às complicações decorrentes desse envenenamento crônico. Dentre as obras mais conhecidas estão "Entrada e Saída do Redentor", "Café", "Retirantes", "Guerra e Paz" (os grandes painéis da ONU), e os retratos da série "Guerreiros". A série dos "Cafés" é particularmente interessante porque mostra a evolução do estilo dele. Nos primeiros quadros, a influência do modernismo europeu é mais evidente. Nas versões mais maduras, as figuras se tornam quase monumentais, com corpos distorcidos que transmitem peso e sofrimento.
Um ponto que pouca gente considera quando analisa a obra de Portinari é a relação dele com o governo Getúlio Vargas. Havia sim um patrocínio estatal relevante nessa época, mas não era simplesmente uma arte a serviço do regime. Portinari mantinha uma postura crítica e independente. Os retratos oficiais que fez de Vargas, por exemplo, têm uma dignidade solene mas não caem no panfleto. Isso é algo que historiadores da arte brasileiro discutem bastante. O legado dele hoje é enorme no Brasil. O Mausoléu do Soldado Constitucionalista em Campinas abriga uma das maiores coleções de suas obras permanentes. Há também o Instituto Cândido Portinari, em Brodowski, que guarda acervos e documents pessoais. A obra dele foi e continua sendo muito copiada, o que traz o problema da autenticidade em leilões. Já me deparei com casos de reproduções vendidas como originais, especialmente em leilões menores do interior. A maneira mais segura de verificar é sempre consultar o catálogo raisonne ou exigir laudos de institutos especializados como o Museu de Arte de São Paulo (MASP) ou o próprio Instituto.
Ele casou-se com Maria Antonia Adela de Freitas Porto Portinari, mãe de seus oito filhos. Dois deles, Cauã e Otavio, seguiram a carreira artística. A filha Zelia Portinari foi importante como crítica de arte e curadora, contribuindo para a organização do acervo do pai após sua morte. A produção de Portinari inclui mais de 3.000 obras entre pinturas, desenhos e gravuras. Esse volume todo dificulta a catalogação completa e gera divergências entre pesquisadores sobre datas e autenticidade de algumas peças, especialmente aquelas produzidas nos primeiros anos da carreira, quando ele ainda estava desenvolvendo sua voz pessoal. É um campo que continua ativo e em revisão constante.