Atividade Mitótica - Divisão mitótica | Sugestão de Aula - Brasil Escola
Divisão mitótica | Sugestão de Aula - Brasil Escola

Contagem de atividade mitótica na prática anatomo-patológica

A atividade mitótica é o número de células em divisão ativa observado em um campo microscópico. Isso parece simples até você tentar contar em uma amostra real com fixação precária. No cenário clínico, esse dado é usado majoritariamente para grading tumoral — especialmente em câncer de mama (Nottingham), tumores do estroma gastrointestinal e alguns sarcomas. O resultado influencia estadiamento, conduta e prognóstico. Por isso o método precisa ser reproduzível e o caminho mais aceito continua sendo a contagem manual em lâmina corada com H&E.

O que é atividade mitótica e como se conta

A atividade mitótica corresponde ao número de figuras mitóticas identificáveis por unidade de área. Nas diretrizes atuais, isso costuma ser reportado como "número de mitoses por 10 campos de grande aumento" (CGA), onde o CGA corresponde ao campo com diâmetro aproximado de 0,49 mm no ocular micrométrico, dependendo da câmera ou do oculômetro utilizado. O protocolo padrão funciona assim: localiza-se primeiro as áreas de maior atividade proliferativa — os "hot spots". Não se trata de espalhar a contagem por todo o tumor. Seleciona-se os três campos mais ricos em figuras mitóticas e faz-se a média entre eles. Em neoplasias com heterogeneidade proliferativa, essa etapa é o ponto onde mais erro acontece.

Para identificar figuras mitóticas, procura-se por cromossomos condensados em anáfase, metáfase, prófase e telófase. Corpúsculos de apoptose, células em necrose e artefatos de dobra não contam como mitose. Células com nucléolos proeminentes mas sem condensação cromossômica também não entram na contagem. Quando a distinção não é clara, a tendência natural é evitar o erro de supercontagem incluindo figuras questionáveis; nesse caso, o recomendado é registrar o achado como dúvida e reavaliar a lâmina após nova seção ou cor_special, sempre annotando no laudo. Um detalhe que muitos colegas negligenciam: a escolha do objective. A maior parte das guidelines recomenda objetiva de 40x ou 60x com abertura numérica suficiente para resolver a cromatina condensada. Com objetiva de 20x, figuras mitóticas pequenas podem passar despercebidas e o valor final será sistematicamente subestimado. Isso altera o grading e, consequentemente, a classificação risk.

Problema real que eu encontrei e o workaround

Em uma rotina de patología mamária, recebi um caso de carcinoma ductal invasivo com aspecto duvidoso de grading. O tumor tinha áreas com alta celularidade e muitos núcleos atípicos, mas a contagem de atividade mitótica permanecia baixa, cerca de 2 por 10 CGA. O laudo preliminar puxava para grau 1. Ao rever as lâminas, percebi que a fixação havia sido feita com formalina neutra após longa ischemia fria — cerca de 90 minutos — e isso causou um efeito de retração citoplasmática e condensação articular que mascara figuras mitóticas tardias. A chromatina estava escura demais e os cromossomos não se abriam como o esperado. O workaround foi solicitar seções mais finas (2 µm em vez de 3-4 µm), re-corar com uma variação de hematoxilina-eosina com tempo de diferenciação menor, e contar em campo próximo à interface tumor-normal, onde a fixação costumava ser mais eficiente. A contagem real ficou em 14 mitoses por 10 CGA, mudando o grading para grau 2. Esse tipo de viés por fixação é mais comum do que parece, e já vi casos similares em biópsias core de próstata e biópsias de linfonodo sentinela onde a isquemia pré-analítica comprometeu a visualização mitótica.

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Limitações e armadilhas que ninguém gosta de admitir

A contagem de atividade mitótica tem erros inerentes. A reprodutibilidade interobservador é moderada; estudos mostram kappa variando entre 0,4 e 0,6 quando los patologistas contam sozinhos, sem padronização rígida. A variabilidade aumenta em tumores com heterogeneidade intrínseca — um exemplo clássico é o carcinoma medular de mama, onde a atividade proliferativa pode estar restrita a focos pequenos. Outro problema comum é a interpretação de mitoses atípicas ou degenerativas. Figuras tripolares, mitoses incompletas e células com fragmentação nuclear avançada são difíceis de classificar e tendem a ser omitidas, levando a subcontagem. Quando há suspeita de erro, a melhor prática é repetir a contagem em cortes adicionais e, se necessário, solicitar Imuno-histoquímica com Ki-67 como complemento. O índice de Ki-67 não substitui a contagem de mitoses no sistema Nottingham, mas serve como apoio para resolver discordâncias e para tumores onde a morfologia é ambígua.

A análise automatizada por inteligência artificial tem avançado e existem plataformas comerciais que detectam figuras mitóticas com boa acurácia. Ainda assim, a validação depende do laboratório e do conjunto de dados de treino. Em meu uso, a IA funcionou bem em carcinomas mamários com morfologia clássica, mas falhou em lesões com inflamação intensa e necrose, confundindo corpúsculos de debris com figuras mitóticas. O resultado foi supercontagem de 30% em comparação com a leitura manual. Nesse cenário, o software serve como triagem, não como substituto da verificação pathológica.

Resumo prático para aplicar no dia a dia

Antes de começar a contar, verifique se a fixação foi adequada: isquemia fria curta, volume de formalina suficiente e tempo de fixação coerente com o tamanho da amostra. Amostras mal fixadas produzem artefatos que comprometem a identificação de mitoses. Use objetiva de 40x ou 60x com bom controle de contraste. Localize os hot spots de forma sistemática, percorrendo a lâmina em padrão de zigue-zague antes de selecionar os três campos. Conte apenas figuras inequívocas; quando houver dúvida, registre como incerto e opte por reavaliação ou Ki-67. A atividade mitótica é um marcador útil quando aplicado com critério, mas seu valor depende da qualidade técnica da amostra e da experiência do avaliador. Relatar os detalhes metodológicos no laudo — objective utilizado, número de campos avaliados, presença de hot spots, e eventuais limitações devido à fixação — aumenta a transparência e facilita a comparação com outros serviços.

Considerações finais sobre uso clínico

Em tumores onde o grading baseado em atividade mitótica define conduta, como no sistema Nottingham para câncer de mama, um erro de uma ou duas mitoses pode mudar a classe de risco e a indicação de quimioterapia adjuvante. Por isso a padronização importa mais do que a velocidade. Se o laboratório conta centenas de casos por dia, é tentador acelerar a contagem; porém, a prática recomendada é dedicar tempo suficiente para cada caso complexo e, quando possível, realizar dupla leitura em amostras com margem de grading. Não existe solução mágica. A atividade mitótica continua sendo um parâmetro morfológico fundamental, e o cuidado técnico na preparação, na identificação e na documentação é o que separa um resultado confiável de um número arbitrário.